
Durante cinco anos, Regina (nome fictício), hoje com 21 anos, namorou com um rapaz. Os pais não levantaram questões. “Amores de adolescência”, não havia razões para alarme. Quando o romance acabou também não viram nisso um problema. “Haverá outros.” Só que as coisas não correram como tinham planeado. A nenhum deles. A mãe foi a primeira a aperceber-se de que a jovem andava “estranha”. Demasiado próxima de uma determinada amiga. Nessa altura, Regina já se sentia apaixonada, numa relação, mas nada disse em casa. Não foi preciso. Havia algo no ar.
“Quando há uns tempos a minha namorada teve um problema familiar eu fiz questão de estar sempre ao lado dela. Foi aí que a minha mãe começou a sentir mais a minha ausência e quis saber o que se passava entre nós.” As perguntas foram diretas e ela não se desviou. A mãe não aceitou. O pai insultou-a. “Nesse dia até me bateram. E quando eu quis sair para arejar, eles não deixaram. Como a minha namorada não estava a conseguir falar comigo apareceu lá em casa. Mal ouviu os berros chamou a polícia. Foi uma confusão.” Encurralada, Regina não viu outra opção senão sair de casa. “Depois daquela reação nem conseguia olhar para a cara deles.”
A jovem estuda e trabalha. E como as contas não são fáceis de pagar, passados dois meses de ter saído, ligou à mãe a perguntar se podia voltar e que condições os pais imporiam. A crise já tem um ano. “Não tem sido fácil. Estávamos muito bem até eu contar que me envolvi com uma rapariga. Tudo mudou. Eles não falam comigo. Está a afetar-me a nível psicológico e isso está a passar para a minha relação. Simplesmente os meus pais não aceitam. Acham que eu tenho de ter um rapaz. Não me percebem. Mesmo sabendo que, hoje em dia, o mundo é diferente.” Depois de já ter tentado, “de várias formas”, fazer-se compreender, Regina diz estar quase a baixar os braços. “Estão todos contra mim.”
Susana, que prefere ocultar a identidade, 24 anos, teve mais sorte. O romance dela com P. começou há cinco anos a partir de uma brincadeira no Facebook. Ela de Lisboa, ele do Porto. “Falámos bastante, por mensagens e por chamada, até nos conhecermos pessoalmente.” Durou um mês. No dia em que se viram pela primeira vez, a 30 de março de 2015, no Porto, ela não só comeu a primeira francesinha como conheceu os pais dele. E no fim ainda ganhou um beijo. Ele tinha 21 e ela 20. Passaram uma semana juntos. Foram a “primeira pessoa um do outro”. O pai, que nunca lhe tinha conhecido ninguém, viu logo o filme. “Há aí namorico.” Mas sem pressões. Os pais acabaram por conhecer o famoso P. uns meses depois. Susana veio depois passar uma semana ao Porto, só que acabou por ficar três.
A primeira vez que dormiram na casa dela, a mãe não os deixou ficar juntos.“É de outros tempos”, afirma Susana
Na casa dos pais de P. dormiam juntos. “A minha sogra engravidou do primeiro filho aos 17 anos e, como éramos mais velhos, ela já nos deixava ficar no mesmo quarto. Com os meus pais era diferente.” A primeira vez que dormiram na casa dela, a mãe não os deixou ficar juntos. “É de outros tempos.” Ainda assim, todos pareciam perceber que “a coisa já era a sério.” A amizade transformou-se oficialmente em namoro a 15 de julho de 2015. Embora a mãe de Susana não tivesse grande fé. “Não vai durar muito, ele é do Porto.” Até agosto de 2016 mantiveram uma relação à distância, trabalhavam e estudavam, cada um na sua cidade. “Até que tive a iniciativa de vir para o Porto procurar emprego e viver.” Os pais de P. deram a opção de ficarem lá em casa até estabilizarem (arranjarem trabalho, tirarem a carta, pouparem…).
“A relação com os meus sogros era boa, principalmente com a minha sogra. Era a filha que ela nunca tinha tido. Íamos às compras (até me ajudou a escolher um sutiã), cozinhávamos juntas, víamos filmes juntas. Houve pessoas a perguntarem se era filha deles, apesar das diferenças significativas (eu mulata, ela de pele e olhos claros).” O sogro também estava contente. “Por ela ter esta aproximação comigo, porque nunca teve com outra rapariga, como a ex-namorada do outro filho.” No caso dos pais dela a situação não causou grande alvoroço, mesmo sendo Susana filha única. “Quando me mudei de vez cá para cima eles aceitaram bem. Já estavam habituados a que eu vivesse longe de casa, num quarto alugado a duas horas durante a época dos estudos. Sempre confiaram em mim. O meu namorado acabou por se tornar também um filho para eles. Perceberam que eu gostava mesmo dele e que o P. era um bom rapaz.”
Desde junho de 2019 que o casal já é autónomo. O pai de Susana diz estar muito contente com a filha que tem. “É normal que ao início ela não nos contasse logo tudo, mas correu bem.” A primeira impressão também ajudou. “São muito ajuizados, dão-se muito bem, e ela tem sido uma boa filha, não tem dado muitas preocupações.” Conselhos? “Praticamente não os dei. Estou muito tranquilo. Sou bastante liberal, tive a idade dela e nós pais temos de nos lembrar dessas coisas. A minha esposa, no início, ficou em dúvida se eu ia reagir bem. Mas foi tudo muito natural. Ela sempre foi livre. Livre e responsável. Estou muito satisfeito com ela. Os miúdos fazem coisas que nós não gostamos, mas devemos lidar com eles com calma e dar-lhes algum espaço.”
“Vais perder-te nos estudos”
Judite Alves Pinheiro, licenciada em Psicologia, na área de consulta psicológica de jovens e adultos, pela Universidade do Porto, não podia estar mais de acordo. Na sua opinião, a melhor forma de os pais lidarem com o primeiro namoro dos filhos é “com naturalidade”. A mesma “com que lidaram com a curiosidade dos cinco anos, as maminhas a crescer ou a barba a despontar na puberdade, com a menarca da rapariga ou a primeira polução noturna percebida no rapaz, a assinalarem a passagem à adolescência”.
A psicóloga, que tem desenvolvido o trabalho em torno da formação profissional de jovens e adultos e da intervenção clínica, nomeadamente em contexto escolar, focando hoje a atividade principal no Agrupamento de Escolas Joaquim de Araújo, em Penafiel, pede ainda “coerência”. E recorda que “é comum vermos famílias incentivarem o namoro da criança que ainda frequenta o ensino pré-escolar ou o 1.º ciclo – absolutamente desajustado porque essa deve ser uma fase de socialização e de aprendizagens básicas, tanto ao nível académico como psicoemocional -, e depois proibirem o namoro dessa criança quando adolescente com justificações como o ‘vais perder-te nos estudos’ ou ‘ainda és muito novo/a para namoros’”.
Para que a fase do primeiro namoro seja “natural”, Judite Alves Pinheiro sugere três linhas de orientação que devem balizar o papel dos pais e mães, ou de quem exerce essa função na vida das crianças e adolescentes.

“Primeiro temos de escutar. E reparem que não digo ouvir, mas escutar, isto é, dar atenção.” E não apenas “ao discurso verbal, mas também a todas as entrelinhas mais subtis que nos vão passando no dia a dia”. Isto é, atitudes e comportamentos, eventuais alterações de rotina e mesmo mudanças no seu fácies. “São bons indicadores que nos ajudarão a perceber se se trata de um namoro saudável, que surge de forma espontânea e perfeitamente integrada no desenvolvimento do/a nosso/a filho/a, contribuindo para o seu bem-estar e para o seu crescimento como pessoa.”
O segundo ponto é a confiança. “Hoje em dia, com o acesso generalizado à Internet, os/as adolescentes acedem a todo um mundo de informação, disponível de modo mais ou menos gratuito e imediato.” A isto somam-se as redes sociais que trazem para dentro da vida de cada um “centenas de pessoas diferentes, de diferentes meios culturais e ideológicos”. O que levou a que os pais “deixassem de ter controlo sobre os princípios e valores com que educam os filhos e sobre a sua a rede de relações sociais”.
Resta aos progenitores depositar nos filhos toda a confiança nos princípios e valores transmitidos, “esperando que saibam fazer boas escolhas”. Já os adolescentes têm de poder “confiar no pai e na mãe, ou em quem exerce essa função na sua vida, com a certeza de que querem o melhor para si, com a certeza de que ouvirão o que tem para contar e saberão encontrar em conjunto uma resposta para eventuais dificuldades”. Por isso, defende a psicóloga, “torna-se cada vez mais fundamental a confiança”, como um “segundo eixo de uma parentalidade positiva e segura”.
“Sentirmo-nos incondicionalmente amados e aceites é a premissa base para a saúde mental de qualquer ser humano”
Judite Alves Pinheiro
Psicóloga
Mas tudo isto só será possível se acrescentarmos o terceiro elemento fundamental: a aceitação incondicional. “É certo e sabido que eles vão cometer erros.” Uma vez que os jovens “estão sujeitos a inúmeros riscos”. Desde a pressão dos pares, que pode levar a um namoro só porque sim, porque todos os colegas do grupo já namoram. Até ao namoro com a primeira pessoa que aparece porque a autoestima é frágil e uma relação vem dar alguma validade à própria existência. Do namoro distante e despreocupado que questiona os próprios afetos, ao namoro tão pegajoso que antevemos o risco de uma gravidez adolescente. Ou até às situações mais graves de relações de namoro destrutivas, fruto de mecanismos relacionais baseados no controlo, na manipulação e/ou na violência, seja ela verbal, física ou sexual.
“Sentirmo-nos incondicionalmente amados e aceites é a premissa base para a saúde mental de qualquer ser humano. Só o amor incondicional dá suporte emocional, estrutura a personalidade e possibilita a capacidade de tomada de decisões ao longo da vida.”
Assim, os pais podem olhar para os exemplos que têm em casa. O primeiro namoro do/a filho/a surge aos 12 anos ou aos 20? O primeiro namoro é heterossexual ou homossexual? O primeiro namoro surge com o/a amigo/a que sempre foi frequência da casa ou com alguém de quem nunca tínhamos ouvido falar e pertence a um mundo social que nos é distante?
Judite Alves Pinheiro responde sem rodeios. “Não importa.” Porque é “o seu primeiro namoro (mesmo que outros tenham existido antes, por vezes ‘amores menores’ da infância)”. O que importa, recorda a especialista, “é nós (pais) estarmos lá, prontos a escutar, a confiar e a aceitar incondicionalmente”.