Depressão: os homens sofrem sem lágrimas nem gritos

Foi já no fim da conversa. Pedro aconselhava quem se sentisse com sinais de depressão a procurar ajuda. Não é o fim de linha?, perguntou-se. “Às vezes, é. A minha irmã suicidou-se, mas na esmagadora maioria dos casos é algo que se pode melhorar.”

Disse-o assim, sem rodeios. É engenheiro, mas pelos termos técnicos que usa podia ser médico. Leu quase tudo o que havia para se ajudar, mas isso só aconteceu depois de bater no fundo. Foi ensinado a ser um homem forte. Mas um dia, o tal, percebeu que não era um herói.

“Pensava que estava a ter um ataque cardíaco, que ia morrer. É como um puxar de tapete. Não podia fazer a minha vida como sempre fiz. Entrei num estado depressivo severo, e logo no período em que queria ser invencível. Estava a ser pai pela primeira vez e senti-me um fraco, incapacitado.” Foi há seis anos.

Hoje, Pedro – foi o nome que escolheu sem hesitar para contar a sua história – conclui que tem predisposição genética para a doença. Um terço das depressões tem origem no ADN. “Tive em ocasiões anteriores sinais de que poderia ter este tipo de vulnerabilidades, como picos de ansiedade enormes. Tentava não valorizar. Pensava que isto não acontecia aos homens, mas não escondi da minha mulher e das pessoas do meu círculo mais próximo. Agora, perante a sociedade, foi algo que me custou.”

No pior período, não conseguia sair de casa, isolava-se, achava que era “uma perda de tempo” para os amigos. Teve de meter baixa médica. “Acordava e não queria viver, queria desaparecer. É algo que vai muito para além do que nós chamamos de tristeza. É muito mais esmagador.”

“Entrei num estado depressivo severo, e logo no período em que queria ser invencível. Estava a ser pai pela primeira vez e senti-me um fraco, incapacitado.” (Pedro)

Em Portugal, estima-se que 500 mil pessoas sofram de depressão. Nos homens, os diagnósticos são feitos numa fase mais tardia. “Tendem a negar sintomas depressivos, expressam emoções com mais dificuldade e ‘depressão’ provavelmente significa quebra da imagem de masculinidade e gera vergonha, por isso é mais frequente esconderem os sintomas durante mais tempo. Os homens podem, mais do que as mulheres, iniciar abuso de álcool, de drogas, ou ter comportamentos de risco como sintomas iniciais de depressão”, explica o psiquiatra Serafim Carvalho.

“Um calvário” por dentro

A história de Pedro tem pontos em comum com a de Ferreira, emigrante na Suíça. Natural de Viseu, luta contra a depressão há 25 anos. “É um calvário. Pensei que era passageiro, mas não é. Houve uma altura em que estive três semanas quase sem sair da cama, mal chegava à porta do quarto, tinha de voltar para trás. Tinha fobias e não queria ver ninguém.”

Ferreira (nome também fictício) tem uma voz forte. Trabalha num armazém, onde todos desconhecem a sua doença. “Os patrões e os meus colegas não sabem que eu tenho depressão. Tenho medo de ser despedido, podem pensar que sou maluco e mandam-me embora.”

Mostra-se sempre bem-disposto, “mas sabe Deus por dentro”. Em 2011 esteve muito mal, não dormia com os pensamentos maus. “Disse no trabalho que tinha uma grande gripe. Nunca demonstro que não estou bem. Faço um esforço tão grande que é impossível eles aperceberem-se. A minha família é a única que sabe.”

Toma um comprimido à noite e cumpre todos os dias a promessa que fez em frente ao espelho, em desespero. “Nós, depressivos, falamos para nós próprios e eu prometi que tinha de ser forte e que não me fazia mal. Jurei que não me matava. Se metermos isto na cabeça é bom. Tive alturas em que achava que não valia a pena viver, não assim, mas tinha a promessa.” É no mesmo espelho que se olha e reza todos os dias: “Obrigado, Deus, por ainda estar vivo”.

Nunca chora, nem grita, mesmo quando a depressão o arrasta para os sítios mais negros da alma, mas a voz treme ao falar da mãe. “Quando tinha 15 ou 16 anos a minha mãe dizia, ‘Se te dá isto, não governas vida nenhuma’, e eu ria-me, dizia que ela não sabia o que estava a dizer.” Agora sabe, da pior forma, e entristece-se ao saber que a mãe, a viver em Portugal, também luta contra a doença, assim como o irmão mais velho.

Ferreira divorciou-se. A mulher nunca se convenceu de que ele estava doente e reagiu com ciúmes às recusas. “Tomara eu acompanhá-la, mas inventava desculpas porque não conseguia sair de casa. Ela achava que eu não gostava dela, mas era ao contrário, não queria ser assim. Ela estava a sofrer e era melhor eu ficar sozinho, mas nunca lhe disse isso na cara.”

“Os patrões e os meus colegas não sabem que eu tenho depressão. Tenho medo de ser despedido, podem pensar que sou maluco e mandam-me embora.” (Ferreira)

No caso de Pedro, a história foi diferente. A força da mulher inspirou-o e ajudou-o a reerguer-se. Durante três anos rejeitou tomar medicamentos. “Queria reabilitar-me sem drogas. Optei por psicoterapia, em especial cognitiva comportamental. Pratiquei ‘mindfulness’ [um treino mental que ensina as pessoas a lidar com os pensamentos e emoções], e num percurso de anos, com alguns progressos, regressei às rotinas, melhorei bastante, mas longe de atingir uma qualidade de vida satisfatória.”

Há três anos, passou a tomar psicofármacos. “Estou num patamar muito satisfatório, apesar de sentir que não tenho uma remissão total. Se aquela sombra desapareceu? Não.”

Mil pessoas puseram termo à vida em Portugal em 2017 (dados do Instituto Nacional de Estatística), 74% do sexo masculino. “A explicação é simples: como os homens não pedem ajuda, sofrem mais e em silêncio e explodem em última análise com a ideação suicida. O comportamento mais comum e sintomático do mal-estar emocional nos homens é a agressividade e impulsividade. As mulheres, ao procurarem mais ajuda, conseguem encontrar o equilíbrio emocional mais frequentemente e mais atempadamente”, conclui Pedro Brás, psicoterapeuta e CEO da Clínica da Mente.

Consultas à distância

Há casos em que o medo de enfrentar o espaço público é tão grande que tem de ser o médico a entrar no perímetro de segurança estabelecido pelo doente. É o que tem feito o psiquiatra Jorge Mota Pereira. Dá consultas online. “Há muitas pessoas que nem sequer conseguem sair de casa. Como é que podem ir a um hospital? Até em termos de remissão clínica a taxa de sucesso é superior à que conseguimos com as consultas presenciais.”

Atende cada vez mais homens e garante que ao entrar na casa dos doentes adquire informação valiosa para os tratamentos. “Falei há pouco tempo com um senhor de Évora que foi submetido a uma cirurgia por ter cancro. Está com uma grande depressão. Falamos pelo Skype e percebi que ele tem montes de família a ajudar, pude falar com todos eles, transmitiram-me informações. Onde é que eu teria a esposa, o filho ou o neto a passear pelo consultório? Nem sequer vinham. Consigo ser melhor psiquiatra porque sei mais sobre os doentes. Se têm um cão, por exemplo – e ter um animal de estimação ajuda muito na recuperação. Tudo isso são informações muito ricas.”

Jorge Mota Pereira tem-se debruçado em especial sobre a comunidade emigrante. “Muitos até vão a outros médicos, mas, no que toca a falar de sentimentos, dizem que é muito diferente falar inglês ou francês. Tentamos ajudar, em sintonia com os médicos de família deles lá, e penso que deveria ser algo a estudar-se, uma melhor colaboração dos nossos médicos com a diáspora portuguesa.”

Sair do armário

Em toda a carreira nunca tinha apresentado uma baixa médica nem faltado por doença. Sentia orgulho nisso. Frederico Mendes Oliveira é jornalista na TVI desde 2002. Estava no segundo ano de faculdade quando entrou para a estação de televisão. No fim do ano passado, percebeu que estava doente.

“Comecei a apresentar alguns sinais de desgaste e perguntaram-me se não queria fazer um horário mais normal e isso deitou-me um bocado abaixo. Um dia, a bolha rebentou. Com a medicação que tomei, faltei dois dias. Estive a dormir quase 48 horas seguidas. Quando voltei disse aos meus editores que não me sentia bem.”

“Um dia, a bolha rebentou. Com a medicação que tomei, faltei dois dias. Estive a dormir quase 48 horas seguidas.” (Frederico Mendes Oliveira)

O nome do jornalista saltou para as revistas depois de ter feito uma publicação no Facebook: “Não importa as vezes que vais ao fundo. Importa o querer levantar”. Era uma resposta à preocupação de admiradores e amigos que questionavam a ausência, mas que deu origem a intrigas sobre a situação no canal. Decidiu acabar com as especulações na publicação seguinte: “Estou a passar por uma depressão e a ser tratado”.

Ele, que nunca quis exposição mediática, assumia com o desabafo uma doença, felizmente, cada vez menos estigmatizada. “O psiquiatra diagnosticou-me com Burnout, isto é, a minha cabeça entrou em cansaço total. A TVI tem-me dado todo o apoio e tenho recebido milhares de mensagens de pessoas com depressão que me agradecem eu ter saído do armário e assumido a doença. Dizem que isso as ajuda a ver que todos temos problemas e, por outro lado, faz-me sentir bem, porque de alguma maneira o meu testemunho público ajudou.” Frederico voltou ao Porto, à família, e está a recuperar.

“Peçam ajuda, já”

Ferreira diz para as pessoas “se abrirem” em vez de sofrerem sós. “Eu sou um homem, tenho um filho, já fui casado. Acontece. Por isso, peçam ajuda o mais rápido possível.”

O engenheiro Pedro faz do desporto a sua arma de luta, uma arma cuja eficácia está já cientificamente provada. “Jogo futebol. Sinto que a seguir estou mais alegre, até o meu dia é claramente acima da média em termos de energia. Nenhuma destas coisas, medicamentos, terapia, funciona sozinha.”

Consegue ver o melhor no pior por que passou. “Tornei-me mais tolerante, comigo e com os outros. Gostava de deixar uma mensagem de esperança, de que há muito que se pode melhorar na nossa doença. As ideias que eu tinha, de que aguentamos com tudo, tiveram de desaparecer. Nesta sociedade, em que os grandes vetores são vencer, ser o melhor, o mais rápido, é importante as pessoas pensarem que o mais importante é ser feliz.”