
Vejo bem… A alegria. Perdi o fascínio pela inteligência pura e aferrei-me à alegria e à inocência, sem as quais a vida não tem graça nenhuma. Os olhos. Com a idade, percebi que quem vê olhos vê corações, e aprendi a confiar nas primeiras impressões. O não. Aprendi tarde a dizê-lo e a perceber que é mais importante e difícil do que o sim. A desarrumação. Levei anos a combatê-la até que percebi que na tralha desordenada que acumulo está o meu disco rígido. A lealdade. Sou amiga dos meus amigos e inimiga dos meus inimigos. Nunca fiz voluntariamente mal a ninguém e, por isso, não perdoo o mal que voluntariamente me fazem. A fúria. É a minha grande musa, que sempre me defende da tentação da preguiça.
Vejo mal… O cinismo. A modernidade confunde-o com inteligência, o que me parece uma tristeza, e causa muitos equívocos. A mentira. Nem calada sou capaz de mentir, o que muitas vezes pode ser uma falta de caridade. E digo tudo o que penso. O tempo. Penso sempre que é elástico e comprometo-me com o dobro das coisas que realmente cabem dentro dele. Mas estou a tentar melhorar. A rotina. Fugi sempre dela, porque sinto que nos aprisiona a liberdade; vivo por objetivos, ou obsessões, e não por horários. O medo. Tenho pavor dele. Fujo das pessoas medrosas como da peste. Imagino o que fariam se aparecesse um novo Hitler. A paciência. Diziam-me que a paciência aumentava com a idade, no meu caso sucede o contrário: à medida que o tempo se esgota, a impaciência cresce.
Escritora
57 anos