Porque se fazem tantos negócios à mesa?

O convite para um almoço ou jantar de negócios traz agarrado intenções. As partes sabem para o que vão (Ilustração: MG/Noticias Magazine)

Por vezes, o restaurante torna-se uma extensão do escritório da empresa. Não por acaso, obviamente. Muda o ambiente, muda o contexto. Negócios à mesa? Porque sim? Porque não? Será um gasto desnecessário e uma perda de tempo? “Longe disso, nunca é uma perda de tempo”, argumenta Alexandre Meireles, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), empresário ligado à restauração e à saúde. “É uma questão cultural”, acrescenta.

O hábito de colocar a conversa em dia às refeições é prática comum e natural sobretudo nos países do sul da Europa, Portugal incluído. Espanha e Itália são muito parecidas. “Estamos habituados a discutir temas importantes à mesa”, frisa Alexandre Meireles. E a mesa tornou-se um cenário para falar de trabalho. Com uma virtude. “Fazer negócios à mesa permite quebrar o gelo, não há aquela formalidade de uma reunião” no escritório. E já se sabe: “O objetivo final é sempre fazer um negócio”. Ou lançar a semente para ver se alguma parceria acontece entre o aperitivo e a sobremesa.

O fato e a gravata até podem ficar no escritório. No entanto, é preciso não esquecer que se representa uma empresa numa negociação à mesa de um restaurante. É aconselhável falar de banalidades no início da conversa, nunca de assuntos pessoais, e evitar temas que podem espoletar conflitos, como política e futebol.

Miguel Vieira, designer de moda e empresário, reconhece que os almoços ou jantares de negócios têm potencialidades e que normalmente resultam. “Nós, os portugueses, temos muito o hábito de fazer reuniões e discussões de negócios às refeições. São encontros menos frios, mais aconchegantes, trocam-se experiências da parte de gestão, mas fala-se de outros assuntos também, o que torna as coisas menos formais.” Já se sentou à mesa para tratar de negócios diversas vezes, mas hoje confessa que tenta abolir essa prática do dia a dia. Porque quer reservar as refeições para estar com a família e porque sabe que esses momentos se prolongam mais do que o esperado. “Prefiro estar muito concentrado.” É uma questão de método, admite. O ateliê, no seu caso, acaba por funcionar melhor para mostrar aos clientes, ao vivo e a cores, as suas peças e os materiais com que trabalha.

Boa vontade, cortesia, elegância

“À mesa, as pessoas sentem-se mais descontraídas, mais informais, como se tivessem uma relação quase de amizade”, sublinha Isabel Amaral, presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo, empresária, coach executiva, professora, autora do livro “Imagem e sucesso”. À mesa fala-se de tudo, de trabalho também. “Um almoço pode ser ótimo para fechar um negócio.” O que não significa que aconteça sempre. “Pode ser um encontro só para ouvir, para pensar antes de tomar uma decisão, para limar as arestas de um negócio.” A verdade é que o ambiente, fora das quatro paredes da empresa, ajuda como uma espécie de desbloqueador de conversas. As fricções que eventualmente existam podem desaparecer num clima de maior proximidade, menos informal.

As regras à mesa aplicam-se em todas as ocasiões. No entanto, há detalhes importantes na hora de falar de negócios. Isabel Amaral destaca pormenores, tais como jamais introduzir o assunto nos primeiros minutos: “Não se deve atacar logo; nunca falar antes da escolha do prato porque podem ser interrompidos pelo empregado de mesa”. Outra recomendação: manter o telemóvel no bolso. O convidado tem de sentir a máxima atenção. A utilização do telemóvel, instrumento de trabalho, só deve acontecer se se justificar.

As mãos nunca devem estar escondidas. “Mãos à vista transmitem confiança às pessoas.” A troca de cartões de visita pode ficar para depois da sobremesa e quem convida, a parte interessada, paga a conta. Com cartão de crédito, se possível, uma vez que o convidado não precisa de saber quanto custou a refeição. A etiqueta é essencial. Boas maneiras, sempre. Pontualidade, nunca começar a comer antes do convidado, nada de cotovelos apoiados na mesa, interromper a refeição para fumar está fora de questão.

A História prova e confirma. A mesa é um local privilegiado para tratar de negócios desde a época dos romanos. “Não é à toa que em qualquer visita entre estados ou personalidades, nas histórias de todas as civilizações, era sempre realizado um banquete”, lembra João Micael, consultor de imagem e de protocolo, professor, especialista em comportamento empresarial. Vários tratados de paz e de comércio foram conversados e traçados à mesa.

Os tempos são outros mas a mesa mantém-se no centro dos negócios. “Já temos pequenos-almoços de negócios e de trabalho”, observa. “Além do óbvio objetivo de nutrição, à mesa há um ambiente propício à negociação, a conversa é mais fluida, é um momento quase íntimo em que se passa uma mensagem.”

O convite para um almoço ou jantar de negócios traz agarrado intenções. As partes sabem para o que vão. “Tratar de uma negociação de uma forma amigável e muito pragmática. O ambiente é mais aprazível, de maior proximidade, é um ato de cortesia entre parceiros ou futuros parceiros de negócios.” João Micael acredita no potencial dos negócios à mesa. “É sinal de boa vontade, cortesia e elegância, com 25 a 50% de garantia de sucesso.”

Prós
• A informalidade proporciona uma descontração que facilita a conversa. A partilha de uma refeição favorece a proximidade.
• A comunicação é mais fluida e a probabilidade de desacordo é mais remota à mesa de um restaurante.
• O caráter das pessoas também se revela à mesa. Uma forma de avaliar comportamentos daqueles com quem se pretende fechar um negócio. E vice-versa.

Contras
• O ruído ao redor e as interrupções dos empregados dificultam a comunicação.
• Avaliar e observar parceiros de negócio enquanto comem pode ser incomodativo – e até perturbar o prazer do repasto.
• A seleção do restaurante pode correr mal. O serviço e a comida podem não agradar.
• A privacidade total não está garantida. No limite, a concorrência pode estar na mesa ao lado.