Com a gestão diária de três filhos de sete, quatro e dois anos e vidas profissionais ativas, sobrava a Ana Cordeiro e Tiago Silva muito pouco tempo para momentos de qualidade em família. O Kula, um jogo de cartas terapêutico lançado por uma psicóloga clínica e uma designer e professora de ioga portuguesas, tem servido para a família de Tiago deixar as tarefas para segundo plano e promover momentos de pausa.
“Passamos tempo todos juntos, despidos de preconceitos. É engraçado porque estamos no mesmo patamar: todos temos de fazer as posições de ioga, todos temos de praticar boas ações”, relata Tiago. “Os valores que o jogo veicula são interessantes mas o melhor é o vínculo que se cria. Até o mais pequeno adere, mesmo sem perceber as regras.”
“O jogo é recomendado a partir dos seis anos, mas pode ser usado mais cedo se tiver acompanhamento de um adulto que possa ler os desafios das cartas e monitorizá-lo”, explica Marta de Freitas, psicóloga clínica e uma das mentoras do Kula, que nasceu de “uma brincadeira caseira” e se tornou no projeto de vida das criadoras.
Foi há mais de três anos, depois de muita investigação e experiências, que Marta de Freitas e Sandra Fontan começaram a desenvolver “uma metodologia que conciliasse os ensinamentos do ioga e os fundamentos da psicologia, da parentalidade consciente e da educação positiva, que fosse divertida e que chegasse a todas as famílias e escolas”, conta a psicóloga clínica.
O resultado assenta em 77 cartas que propõem um total de 140 exercícios de gestão emocional, mindfulness e ioga para “harmonizar as emoções e tensões acumuladas no corpo”. Assim pode-se “trabalhar em equipa para obter os melhores resultados, através do diálogo e da compaixão”.
Aprender a partilhar
Dos três filhos de Ana e Tiago, é o do meio, Gonçalo, de quatro anos, quem mais beneficiou com o jogo. “Traquina é o nome do meio dele”, define Tiago. “O Gonçalo tinha muita dificuldade em partilhar os brinquedos. Uma das vezes em que estávamos a jogar o Kula calhou-lhe uma carta em que era convidado a dar um brinquedo dele a um amigo. E foi muito engraçado. Depois de alguma resistência entrou no espírito e escolheu facilmente um brinquedo para dar ao amigo. Aproveitámos e enchemos uma caixa com brinquedos para doar a uma instituição. Hoje em dia partilha com muito mais naturalidade.”
Apesar de ter nascido sobretudo para fortalecer o vínculo familiar, o projeto estendeu-se à comunidade escolar. Marta e Sandra acreditam que “uma educação do futuro não é uma educação competitiva, mas sim de cooperação, empatia e criatividade”. Através da “visão comunitária e da autorregulação emocional e concentração”, o Kula contribui para uma aprendizagem “mais significativa, que se pode observar através do aumento do rendimento escolar”.
O jogo, parceiro de investigação da Cátedra UNESCO em Educação para a Paz Global Sustentável, tem 40 atividades exclusivas para contexto escolar. Já a ser implementado em algumas escolas portuguesas, o Kula dará um passo para a internacionalização este ano através de um projeto a implementar em escolas da Guiné-Bissau.