Rui Cardoso Martins

A mãe era outra

(Ilustração: João Vasco Correia)

Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.

Quando entrei na sala, mascarado como um assaltante de histórias, a mulher soluçou:

– Eu quero dizer que estou muito arrependida pelo mal que fiz aos outros e, principalmente, pelo mal que fiz à minha filha!

Lá estava ela – e eu aqui a lembrá-la em casa, de portas fechadas, cercado pela pandemia (já entrou?) -, uma mulher em sofrimento no tribunal, logo a seguir ao Ano Novo, ainda sem saber os horrores de Janeiro de 2021, o Mês Cruel, o que hoje termina, e não conhecemos nada de Fevereiro, só amanhã inaugura a nova galeria de terror. Dias depois, iam fechar-lhe de novo o cabeleireiro, o cerco apertando o seu país de acolhimento, a cidade, bairro, prédio, andar. Nem os casos como o dela seriam julgados, só as urgências. A mulher falava nos últimos minutos possíveis de se falar.

Mas é uma urgência que dura há mais de sete anos, a de Rosa.

– E o que é que interpreta, relativamente a esta sua actuação, perguntou a juíza, como é que hoje pensa do que fez?

– Não percebi, disse Rosa.

– O que é que, relativamente a estas pessoas, tem a dizer? É uma actuação que voltava a fazer?

– Nunca, estou mesmo arrependida de estar em tribunal perante ela, peço desculpa ao tribunal, peço desculpa à Z..

Z. é a sua filha de sete anos.

– Mas está arrependida por ter sido apanhada ou porque tem uma posição diferente relativamente a este tipo de actuações?

– Estou arrependida pelo erro. Por ter feito este crime e…

A mulher limpou a varanda dos olhos com as costas da mão.

– … e por ter manchado a minha filha…. a Z…. e a minha vida.

– E se voltasse a ter circunstâncias semelhantes, nomeadamente necessidade de emprego e a possibilidade de usar uma identificação alheia… Entre essas duas possibilidades, qual é que ia seguir, a de não ter o emprego, usando a sua identificação, ou de ter o emprego usando a identificação alheia?

– Não. Melhor se… eu ficava sem emprego.

Silêncio.

– Antes de mais: habilitações literárias?

– 9.o ano.

– Como cabeleireira quanto é que ganha?

– Agora, como está nessa pandemia, ganhamos para aí entre 400 a 500 por mês.

– Tem uma filha, não é?

– Tenho três filhos.

– De que idade?

– O mais velho tem 16, a segunda tem sete e o último tem dois.

– A questão tem a ver com a de sete, não é assim?

– Sim, sim.

– Os três filhos vivem consigo?

– Sim, sim.

– Vive com mais alguém?

– Em casa não, não.

– O pai paga pensão de alimentos?

– O pai do mais velho, não. O da do meio, também não… dá de vez em quando, mas não tem fixo.

– A dos sete anos. Quanto é que ele paga?

– Normalmente ele dá 50, ou 80 euros.

– Todos os meses?

– Sim, sim, admitiu Rosa. O do mais pequeno, dá 300 euros, todos os meses.

– Tem abono de família?

– Só do mais novo.

Paga duas rendas, a da casa e do pequeno cabeleireiro. Eu tentava perceber, encaixar as peças. Agora já posso explicar (a vós que ledes o caso). Rosa veio da Guiné há 12 anos. Ninguém lhe dava emprego sem papéis. Rosa, que tinha 20 anos, roubou a autorização de residência de uma prima sua. E com isso roubou-lhe a identidade. Arranjou emprego como interna, abriu conta no banco. Arranjou uma vida. Mas não era sua. E quando engravidou e teve a filha Z., na maternidade Alfredo da Costa, tudo cresceu “como bola de neve”, disse ela. A mentira inicial roeu a vida de todos. A filha de Rosa fez-se filha oficial da sua prima, sem que nenhuma o soubesse. A filha ainda é filha da outra. A prima ainda não lhe perdoou, Rosa não se perdoou. Um dia a filha dirá se lhe perdoa.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)