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A senhora esquecida

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Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.

A juíza subia o tom de normal a enervado, de imperativo a furioso.

– D. Maria de Fátima, a senhora está proibida de mexer a cabeça, se volta a mexer a cabeça para cima ou para baixo, eu mando-a sair da sala.

– Foi na… na Padaria Portuguesa, era lá que nos encontrávamos, gritou a testemunha atrás de Fátima.

E Fátima baixou o queixo e a juíza subiu a voz:

– Ó D. Maria de Fátima, não abana a cabeça a dizer se sim ou que não! Se volta a dar instruções à testemunha, eu vou tirá-la da sala, a senhora está a induzir as respostas à testemunha. A próxima vez que a senhora fizer isso eu vou tirá-la da sala!

O pescoço largo de Maria de Fátima ainda se moveu, talvez a concordar com a juíza, mas nem isso lhe era agora tolerado:

– A senhora vai manter-se imóvel e em silêncio!

Então, finalmente, a mulher larga e acusada de burla no banco dos réus, de camisola preta, ficou parada e seca como um escaravelho a fazer de morto. Se a virássemos no ar com um pauzinho, ficaria de braços cruzados, as pernas rígidas até depois de nos irmos embora.

Continuou o interrogatório da testemunha. Era uma mulher mais velha e de zoologia exuberante: vestia casaco de pêlo falso de leopardo, descaradamente acrílico, e um cabelo que, se verdadeiro, parecia oxigenado em cave clandestina e, sendo peruca, servia para uma figurante loira colocada lá longe na multidão de um filme.

– É assim. Eu normalmente vou tomar o pequeno-almoço e o lanche na Padaria Portuguesa… às vezes noutro café. Possivelmente foi na Padaria, que era onde ela mais ficava.

– Portanto, estiveram lá as três, disse a procuradora.

– Estivemos lá as três nessa tarde, disse a pele de leopardo. Eu lanchei.

– E depois de lancharem, o que é que fizeram as três?

– Eu vim para minha casa.

– Não foi com elas para lado nenhum, não as acompanhou? Cada uma foi para o seu sítio, é isso?

– Claro que sim. Ela foi com a Fátima, eu fui para minha casa.

– Então, não sabe o que se passou depois de estarem no café.

– Não, não.

– Enquanto estiveram no café, a senhora D. Maria de Fátima mexeu na mala da senhora D. Maria Augusta?

– Diga?, desafinou a testemunha, ganhando tempo.

Repetiu-se a pergunta nas suas exactas palavras, mas agora a testemunha sabia como responder.

– Ai, não vi nada disso. Ela já estava mal dos olhos e tinha uma ferida aqui no peito, não sei porquê, e acho que estavam a conversar que a Fátima tinha de a levar lá à clínica.

– Estivera a falar dos assuntos da doença da D. Augusta?, interrompeu a juíza.

– Sim, sim, doutora. Eu até lhe perguntei: ‘Então, mas você não tem família, não tem ninguém?” E ela disse-me que não tinha. Fiquei assim a olhar para ela… “Não tem ninguém? – não… – então tem aqui a Fátima, que trata de si!”

Uma sobrinha da velha D. Maria Augusta acusou Maria de Fátima de se ter insinuado junto da tia para lhe extrair dinheiro. No dia da acusação, teria furtado o cartão multibanco da carteira da velha senhora, quando esta fora à casa de banho, e ido levantar dinheiro. No total, com o estratagema, teria roubado mais de mil euros. Mas Fátima defendeu-se em tribunal dizendo que tratava da senhora e que tudo fora combinado de livre vontade. Foi também o que defendeu a sua amiga da pele de leopardo: que as duas andavam sempre juntas e que o dinheiro seria para despesas e salário.

– Eu tenho a impressão de que a senhora sofria de demência. Porque às vezes a Fátima não a encontrava. E depois encontrava-a e ela dizia-lhe: “Vai-me levar a casa da Fátima”.

A senhora era doente. E de vez em quando cheirava muito mal, muito mal.

– A chichi, a urina?

– Exactamente. E a Fátima é que lhe dava o banho e que tomava conta dela. E quando tinha uma nódoa, mudava-lhe a camisola. Ela sempre andou impecável desde que foi para as mãos da Fátima.

Fátima será absolvida. O dinheiro poderá ter sido dado de livre vontade pela D. Augusta. Fátima levantou-se perra do banco dos réus, agora podia mover-se. A senhora já morreu. Na solidão, seja mal ou bem explicada, sobra sempre uma razão.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)