Correio de ódio

Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.
Era tão fora daquilo que é suposto acontecer, disse a mulher, era quase fantasioso, ouviam a rapariga no patamar do prédio, vestida com a farda dos CTT, e não acreditavam, estavam a ver um filme – assim falamos das situações bizarras em que a vida mergulha os mortais. Uma cascata violenta de coisas sem resposta possível, até voltarem, outra vez sem aviso, os ares e os sons que conhecemos.
Eu ouvia a mulher a contar a manhã de chuva em que começaram a tocar à campainha do prédio da família. A velha mãe, dona do edifício, num andar, dois filhos noutros andares, cada um no seu. Uma empregada comum que trata a proprietária por “senhora” e a filha de mais de 40 anos por “menina Ana”. Tocavam, tocavam à campainha e Ana respondia carregando, e voltando a carregar, no botão eléctrico da abertura lá de baixo.
– Acabei por descer, porque não parava de tocar, disse Ana.
Para sua surpresa, quando chegou ao rés-do-chão, a porta da rua estava aberta. E viu uma funcionária dos CTT à chuva, ao lado de um homem. Não conhecia nenhum. Este também estava de farda, era outro carteiro, de guarda-chuva levantado e o carrinho dos envelopes e encomendas, mas disso não se apercebeu logo. Quando a moradora disse que não percebia por que estivera a tocar tanto, uma vez que a porta já estava aberta, deu-se a explosão da jovem carteira. Cresceu para a porta e berrou:
– Suas putas, nós a trabalhar aqui à chuva, e não abrem a porta!
Muito rapidamente, relembrou a queixosa no tribunal, estava a pensar: “Vamos morrer aqui”. A carteira entrou para o prédio, renovando os insultos, começando empurrões, enquanto a moradora cerrava a porta para não deixar entrar o homem.
– Eu não sabia quem ele era. Fechei a porta para não o deixar entrar, pois estava com ela… É um prédio que àquela hora do dia só tem mulheres e crianças, estávamos aterrorizadas.
Só depois soube que era um homem bom, queria resolver as coisas.
– Era até muito simpático, mas na altura só tive medo.
Exigiu a identificação da carteira para apresentar a queixa. Em resposta, uma série de ameaças fora da imaginação (mas a imaginação pode sempre alargar para fora de qualquer coisa, basta querermos). Ana, a moradora, tremia no tribunal:
– Disse que me cortava a cara, que me matava, que eu não sabia quem ela era, que chamava umas pessoas que ela sabia e que iam lá resolver o assunto, que… que… que queimava o prédio com cocktails Molotov! Era quase fantasioso. Nunca tinha visto uma pessoa naquele estado.
A juíza perguntou se achava que a carteira estaria alterada.
– Não sei. Álcool não devia ser. A porta já estava aberta e ela continuava a tocar à campainha daquela maneira. Eu, quando abro a porta do prédio, estava à espera de um “muito obrigado” e ela entra logo alterada.
A empregada da família entrou na sala de audiências:
– Conhece a arguida Milene?
– Tive a infelicidade de a conhecer só uma vez. A menina Ana estava a abrir-lhe a porta e ela… até chegou ao ponto de se virar contra a menina Ana.
Pormenores de que se lembra: a senhora aterrorizada num dos patamares, e teve de agarrar a carteira pelo colete, que gritava “venho cá à noite, ponho um cocktail Molotov e mando isto tudo pelos ares”. Depois, a inversão: a funcionária dos CTT teve uma brutal quebra de ânimo, quase desmaiou e tiveram de lhe ir buscar um copo de água, tremendo num caldo de nervos.
– Foi uma coisa surreal. Ela tinha uma força inexplicável. Ela ao mesmo tempo segurava a menina Ana e batia em mim.
Não percebo como é que ela conseguiu filar as duas, exclamou a empregada.
Quanto ao homem, um pacato estrangeiro, carteiro dos CTT que assistia a tudo à chuva, tentou separá-las, acalmá-las.
– É difícil de explicar… Mulheres a saltar umas em cima das outras. Eu só queria entrar no prédio e tirar a Milene de lá.
– Ouviu algumas ameaças quer das senhoras quer da Milene?
– Não me lembro. Tantos gritos soltaram ali.
Nunca mais viu Milene. Via-se nos olhos que estava triste por ela.
No ir e no vir do correio, pensamos nós no que passa o nosso pobre carteiro?
(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)
