Cortados a corta-cartas

Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.
“Continuam aqui as formigas”, disse a juíza, olhando a sua secretária. Era a segunda sessão do julgamento e parecia a metáfora certa para o surrealismo do caso: um casal de professores que se esfaquearam com um abre-cartas. Na semana anterior, a juíza interrogara a arguida, professora do Secundário. Acusada de violência doméstica. Ela cambaleou e gaguejou no banco dos réus, berrando:
– Ele aparece-me todo enervadiço e diz-me: “Pensas que eu tenho medo de ti?”. E eu, instintivamente, peguei no abre-cartas e ele saltou imediatamente e agarrou-me pela mão. É muito maior! Já consegui recuperar alguns qui… qui… quilos. Eu por baixo dele, com o joelho no meu peito!
Que o marido, ao reentrar na sala de jantar, lhe deu uma estalada:
– “Eu mato-te, eu vou-te matar!…” E eu, feita estúpida, fui buscar um abre-cartas que é uma lupa pequenina, que eu uso para ler, e atiro-a para o chão: “Se quiseres, mata-me!”.
Era a segunda arma do crime. A juíza tirou-as de um envelope de provas. Uma parecia uma adaga minúscula, do tempo de Camões. A outra, uma folha mole, estanhada, com uma lente redonda na outra ponta, para ler letra miúda. As duas lâminas, no tribunal, pareciam adereços de teatro amador. Foi com o primeiro abre-cartas que a mulher esfaqueou o marido várias vezes no peito.
– O que a senhora diz não faz sentido. Disse que a conversa foi banal. Se a conversa foi banal, como é que sentiu necessidade de pegar num abre-cartas?!
E ela falou em muitos anos de insultos, de joelhos esfolados em alcatifas. De uma aluna amante que ele teve que lhe podia prejudicar a carreira e a família.
– E vivia com um agressor e estava era preocupado com a carreira dele?
– Claro que sim. Porque é família. Porque o meu filho tem o direito de ter um pai normal e não um pai agressor!
– E ter uma mãe agressora?
– Muito menos.
Em resumo, ao tentar espetar-lhe o abre-cartas na cara dela, ele acabara por se ferir a si próprio.
– Se ele estava a agarrar a senhora e a tentava espetar a si, como é que foi ele que acabou espetado?!
A mulher continuou: nessa manhã, sugeriu que o professor devia comprar bilhetes para o Brasil à sua namorada, ou estava sujeito à chantagem dela. Mas foi ela quem enviou fotos da namorada nua do professor à reitoria da universidade. Roubou-as do telemóvel.
– Achei que era grave. Haver mensagens sobre fazer sexo no gabinete onde trabalha! Ela escrevia que eles transavam!
Na segunda sessão, entrou o marido, o universitário. Não era grande, não metia medo. Contou que durante três anos a mulher saíra de casa para viver com outra pessoa uma relação amorosa.
– Viveram juntos, dormiram juntos.
Depois, a professora quis voltar para casa. Ele aceitou “talvez por fraqueza” e porque um filho estava mal. Que só se envolvera com alguém depois de a mulher sair de casa. Um dia, a mulher voltou.
– Queria reatar a relação consigo?
– Sim, e eu não quis. Pedi várias vezes o divórcio. Num dia aceitava, no outro já não aceitava.
Ela disse-lhe:
– Quero que os nossos filhos vão para outro lado. Para um hotel.
Ele disse que não, muito menos num período de confinamento. Foi no início do primeiro grande fecho mundial, em Março de 2020. Também explicou que já deixara a namorada, logo que esta se inscrevera no curso dele. Ele foi para o escritório, quando a mulher começou a falar alto. Pediu silêncio.
– Ela cresce para as pessoas. A única coisa que fiz foi segurar-lhe nos braços. E ela vai buscar uma faca grande. Um abre-cartas que estava numa cómoda. Dá-me uma primeira facada de modo vertical. Eu fiquei em pânico. Uma pessoa não sabe na primeira facada o quanto ficou ferida.
Ela enviou fotos da ex-namorada do professor para a reitoria da universidade. Nua. Roubadas do telemóvel.
– Isso deixou mácula. Eles consideram-me um homem e um professor exemplar. Mas a carreira é muito rigorosa neste aspecto. Nunca serei reitor de uma universidade. Ainda hoje tenho vergonha de uma coisa que não cometi.
Estamos outra vez confinados.
(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)
