Rui Cardoso Martins

Uma volta ao bilhar grande

(Ilustração: João Vasco Correia)

Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.

Fazendo as contas, no julgamento não estava ninguém envolvido no crime. Nem a vítima, nem o criminoso. A vítima vive algures na crusta terrestre, fora de Portugal, longe das nossas presidenciais. Foi muito pobremente descrita como “um estrangeiro”. Um dia desembarcou para conhecer Lisboa e não se poderá queixar, pois de facto conheceu-a logo de manhã. Até de mais. Não tinha chegado ao hotel e já vira a capital de ponta a ponta, não em linha recta, mas como que atravessando uma grande lombriga nas entranhas da capital.

Isto deu-se nos tempos em que o turismo existia e estas cenas típicas tinham graça. Agora, nem turismo nem graça, só medo e pobreza à espera na esquina. Para os tribunais, no entanto, sobraram os resíduos jurídicos da bela miséria taxística portuguesa.

O arguido não apareceu. A procuradora disse-o dispensável (para já), o advogado do desaparecido concordou e a juíza chamou uma testemunha. Era o homem que geria a frota de cinco táxis.

– O senhor sabe quem é que conduzia o veículo nesta altura?

– Eu saber, não sabia. Esse carro estava entregue a um outro colega meu, que era o A. T. Ele ausentou-se, foi para o Brasil e colocou lá duas pessoas a trabalhar: o Fábio e o Paulo A. Supostamente, teria ficado uma agenda, que desapareceu, e que identifica os motoristas a trabalhar. Tive de questionar os dois até um me dizer quem é que estava.

– E conseguiu informar a PSP disso?

– Exactamente, foi o Fábio que disse que era ele, que houve várias trocas entre eles, que o Fábio estava responsável pela parte da manhã e o Paulo da parte da tarde. Então eles lá andaram a ver entre eles e o Fábio acabou por assumir que tinha sido ele a conduzir o veículo.

A juíza perguntou se podia garantir quem guiava no crime.

– Não, a certeza não posso ter.

O advogado do taxista ausente resmungou:

– Não há facturas, não há nada, então como é que é isto?!

– Existem facturas emitidas nesse dia por ambos. Ambas as facturas são manuscritas, mas não aparece a hora. Eles entre eles é que decidiram e concordaram quem é que tinha sido. Um dos dois. E o Fábio disse que tinha sido ele!, enervou-se o gestor de frota.

– O que eu quero é que o senhor diga aqui ao tribunal que um estava de manhã e o outro estava à tarde!

– Isso não consigo.

Entrou o agente da investigação criminal da PSP de Lisboa. Recebera a queixa do estrangeiro passageiro e:

– Limitei-me a cumprir o percurso mais curto do trajecto a que o motorista de táxi está obrigado, salvo ordem em contrário do passageiro. E depois, com a distância percorrida e com as tabelas em vigor, apurei um determinado valor. Constituí o arguido. Tive de chamar o responsável da empresa. Porque um passava para o outro, ora era um, ora era o outro, depois tiveram que ir lá os dois e depois chegou-se mesmo à conclusão que era o Fábio.

A corrida foi do aeroporto a um hotel dos Restauradores.

– Não tendo presenciado o trajecto, eu pergunto se em algum momento falou com o passageiro.

– Não, eu não estava lá. É claro que não.

E o estrangeiro deve estar agora confinado noutro canto do Mundo.

– Como é que fez este percurso?

– Numa viatura da PSP.

– E a viatura marca alguma coisa?

– Tem conta-quilómetros.

– Ah, conta-quilómetros. Não tem taxímetro?!

Não. Esta polícia de investigação não parece muito científica.

A procuradora pediu mandado de detenção para o taxista.

– Parece absolutamente intempestiva tal diligência, até porque o MP considerou que o julgamento se podia iniciar sem a presença do arguido!, resmungou o advogado.

A juíza disse que Fábio ou justifica imediatamente ou vai voltar ao tribunal algemado. Do aeroporto aos Restauradores, o preço indicado pela tabela seria 10,30€. Fábio cobrou 48,50€. Por onde andou com o estrangeiro? Mostrou-lhe Lisboa ou foram a Sintra, que também é bonita?

A próxima corrida do taxista Fábio até ao tribunal, dentro de um carro da polícia, vai ser grátis. O resto do passeio é que não.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)