Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.
Os limites de uma ameaça são os da imaginação. Mas há casos que podem ser medidos: por exemplo, da janela ao chão. Muitos incidentes começam em buracos escavados na confiança de dois amigos. Como os prédios nos terramotos, descobrem-se alicerces mal cravados, traves-mestras fora do sítio, vãos de escada tortos e janelas abertas a tragédias.
– Eu, enfim, sou uma pessoa de bem. Isto foi numa fase muito má da minha vida, inclusive tinha perdido a minha mãe…
Manuel conhecia o advogado Edmundo há mais de 40 anos. Se não eram mesmo amigos, havia uma ligação. Duas, aliás: o advogado tratava da papelada da mãe de Manuel e era também o advogado do ex-sócio de Manuel (é verdade, os negócios de Manuel andavam péssimos).
– Eu não tenho noção de ameaças… tenho noção de me ter excedido. Fiquei ofendido com a situação porque eu… a minha mãe já tinha morrido. E eu só perguntava: porque é que está a apresentar isso a mim?
– É uma confissão integral e sem reservas?, disse a juíza.
– Eu não me lembro do que disse…
Ora bolas, estava a ser fácil de mais, disseram os olhos da juíza, os da procuradora, os do advogado do advogado, que esperava lá fora resposta para uma extraordinária ameaça. Manuel gritara-lhe:
– Se volta a falar-me que tenho de pagar a conta da minha mãe, volto cá e atiro-o pela janela!
A janela do escritório do advogado Edmundo não fala mas é eloquente: sexto andar em rua de Lisboa empedrada à portuguesa.
– O enviá-lo pela janela, o matar… não me estou a reconhecer nesses termos, continuou no tribunal o homem de bem.
– E linguagem ofensiva?
– Sim, devo-lhe ter chamado nomes, insultos. Ameaças não.
– Que palavras disse?
– Não me lembro.
– Para haver insultos é preciso dizer palavras!
Manuel fechou, por assim dizer, a janela argumentativa e voltou-se para dentro, agora parecia um advogado em autodefesa.
– A situação está resolvida. Inclusive, voltei a encontrá-lo há tempos e voltei a pedir desculpa.
Depois, o rol da sua vida: 8.º ano de escola, o trabalho incessante e desemprego quase na velhice, a filha que o ajuda, o pai que faleceu, o irmão que morreu, a mãe que também se foi. E a continha do advogado que lhe chegou à caixa de correio.
– Eu só sentia: porquê eu? Porquê eu?
– Mas o senhor não é herdeiro da sua mãe?
“Herdeiro!”, sussurraram as mãos de Manuel, soltas no ar.
– A minha mãe não me deixou nada. Só umas coisas pessoais que não valem nada…
Ainda por cima (ou por isso mesmo), mãe e filho deixaram de se falar antes do óbito. Só ficou um recibo de advogado. Edmundo entrou de camisa aos quadrados, queimado do ar da rua, baixo e barrigudo. Sobre Manuel:
– Conheço-o seguramente há 30 anos ou mais. Em 2013, o senhor Manuel estava com um problema com a mãe, e pediu-me para a ajudar. Era uma procuração de serviços jurídicos, que fiz. O que aconteceu foi o seguinte: era minha intenção não cobrar, porque o senhor Manuel não tinha muito dinheiro… pronto, é pobre. Mas como não me disse nada, nunca me telefonou ou agradeceu, eu mandei a conta…
Subamos ao prédio com Manuel. Bate à porta de Edmundo.
– Apareceu, falou comigo, foi muito correcto, disse Edmundo
Até não ser.
– Descontrolou-se, destratou-me, insultou-me. Foi muito agressivo. Ameaçou que, se eu voltasse a falar no assunto, voltava ao meu escritório e me deitava pela janela.
– E teve medo?
– Se ele me deitasse abaixo, como o meu escritório é no sexto andar, nem os ossos se aproveitavam…
Mas os ossos estão intactos, o Natal mais ou menos, 2020 foi o que se sabe e Edmundo não acredita que o façam voar para a morte em 2021. Está disposto a “passar uma esponja”, “a perdoar tudo”.
– Só preciso que ele me explique porque é que disse aquilo.
Manuel pedirá sempre desculpa. Agora, pagar a conta, ‘tá quieto:
– Nem me passa pela cabeça.
(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)