Valter Hugo Mãe

Álvaro Vasconcelos


Rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe.

O incómodo causado pelo testemunho de Álvaro Vasconcelos no livro “Memórias em tempo de amnésia” só se justifica porque a atrocidade cometida pela ocupação colonial ainda é crime impune e sem assunção. A indignação de Álvaro Vasconcelos perante o esquecimento nada inocente resvala no esforço hipócrita dos poderes brancos que visa manter o assunto em silêncio o tempo suficiente para que não se pague pelo que foi feito. Até porque adiando a questão por umas gerações haverá sempre a desculpa de dizer que quem exerceu o privilégio branco de explorar os negros já morreu. A questão é que quem usufrui da exploração ainda viverá. Porque os séculos de abuso e extermínio dos negros favorecem até hoje, e continuarão a favorecer, tudo quanto respeita à vida do cidadão europeu.

O livro de Vasconcelos explica com clareza como é impossível a conquista da ideia democrática perante a manutenção do colonialismo. Democracia é obrigatória inclusão, pelo que o ódio à subalternização de pessoas por qualquer motivo se torna elementar nas consciências dos jovens que fazem o Maio de 68 e se preparam para o 25 de Abril. A Democracia, contudo, perante o trauma dos povos negros, parece pedir esquecimento. Uma espécie de jogo zerado quando, na verdade, o que os povos brancos extorquiram dos negros não foi minimamente devolvido, não houve qualquer processo de compensação por uma escravidão que perdurou travestida até 1974.

Como se pode, então, pedir esquecimento quando não se exerceu terapia alguma sobre o trauma? Perante a vontade europeia de esquecer, que direito existe em pedir esquecimento aos povos africanos que ainda se vêem excluídos de toda a parte?

Com séculos de presença no país, onde estão os negros nos municípios, no Governo, nos bancos, nas direcções das grandes instituições, onde estão os negros portugueses proprietários? Famílias que representem a nobreza negra, a memória negra, a cultura que tanto se diz que os portugueses admiram mas que não parece digna o bastante para ascender acima da condição servil?

A Europa é racista. Absorve outras culturas com muita parcimónia e sempre pelo mesmo motivo: toleramos os diferentes na medida em que venham trabalhar naquilo que não queremos mais fazer. Isso é tão válido para os portugueses que foram construir e limpar casas para os franceses, como para os brasileiros que chegam cuidando da nossa restauração.

Se a Democracia implica a inclusão, esta só existe se a paridade for praticada. Incluir não é prosseguir com a mesma lógica de exploração mudando o nome às coisas e adoptando retóricas hipócritas. Democracia é fazer representar em todos os poderes as pessoas que efectivamente fazem parte, e os negros não estão no poder em Portugal. Não estão inscritos em coisa nenhuma, senão em muito pontuais oportunidades que mais significam uma quase folclórica alegria do que um Direito verdadeiramente adquirido. São precisos mais mil livros como o de Álvaro Vasconcelos, e menos um milhão de chefias por toda a parte a impedir que se assuma a atrocidade da nossa História ainda actual. Porque não é sobre o passado. É sobre nós, agora, num sistema sempre racista e abusador.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)