A explicação do Mundo
Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.
Quão estranho é o ofício de escritor que só agarra o pensamento para o transformar em palavras e ideias no misterioso mundo interno da sua solidão e que por isso mesmo se espanta quando meses, anos ou décadas mais tarde, ouve o eco do seu trabalho nos corações alheios. Escrevo numa madrugada de julho, confirmando o cliché que os escritores preferem a noite para trabalhar. No meu caso, não podia estar mais longe da realidade. Pratico o meu ofício sempre de dia, quanto mais cedo melhor. A luz suave traz-me o alento das horas mais puras. Para mim escrever de noite é quase uma bizarria, mas por vezes acontece, por ser o único caminho possível para alcançar a paz.
É sempre com enorme alegria que recebo a notícia de um poeta agraciado com um prémio de literatura. A brasileira Adélia Prado é a vencedora do Prémio Camões e também do Prémio Machado de Assis. Adélia define-se como poeta do quotidiano, porque é isso mesmo que temos: a vida que se repete, num assombro pela normalidade. O poeta consegue dissecá-la em camadas finas e subtis e, pasme-se, atreve-se a explicá-la. É condição do poeta não apenas sonhar, mas ensimesmar-se com a sua própria existência, enquanto decifra, com a lupa aumentada que também se chama coração, o que vai no coração daqueles que ama enquanto descreve o que sente. “Se não há espanto, não escrevo”. Palavras de Ferreira Gullar, outro poeta maravilhoso que o Brasil deu ao Mundo.
Escritores e poetas abraçam a escrita com o desejo, nunca cumprido, de dar explicações sobre o Mundo. Não o mundo superficial, espartilhado em deveres e obrigações, cumprir horários, levar os filhos à escola, dobrar roupa, pagar contas e cozinhar o jantar, mas o universo particular de cada um, esse emaranhado de sonhos, medos e paixões que nos atormenta e nos ilumina, nos põe em guerra por dentro ou nos liberta do caos. Em uma entrevista no programa Roda Viva do canal TV Cultura em 2014, Adélia explica que todo o poeta é do quotidiano, porque é o que o poeta tem, a experiência diária de acudir às necessidades básicas da vida, as paixões humanas, as boas e as perversas. O que alimenta a minha poesia é o próprio susto e o próprio espanto que eu tenho com a vida, afirma, concluindo que existir é muito esquisito. Em um dos seus poemas mais conhecidos, “Com Licença Poética”, Adélia define de forma magistral a essência feminina. Não sou tão feia que não possa casar/ acho Rio de Janeiro de uma beleza/ e ora sim, ora não creio em parto sem dor. /Mas o que sinto, escrevo. /Cumpro a sina./(…)Minha tristeza não tem pedigree/ já a minha vontade de alegria/ sua raiz vai ao meu mil avô./Vai ser coxo na vida é maldição pra homem./Mulher é desdobrável/ Eu sou.
O dia está a nascer, anunciado pelo chilrear dos pardais. Mulheres desdobráveis por todo o mundo despertam, prontas a cumprir desígnio do seu destino, e algumas pensam, não sou tão feia que não possa casar.
