A fila anda
Quando o tempo era uma inevitabilidade impossível de acelerar, o espírito humano tinha mais paciência. Os mais velhos saboreavam-no, os mais novos aprendiam a suportá-lo. O tempo estava para o amor como o vento para os incêndios, apagava os mais fracos e ateava os mais fortes. Conhecer alguém, combinar um encontro, falar ao telefone durante horas, escrever cartas, enviar, esperar que a carta chegasse ao destino e depois esperar pela resposta, tudo demorava o seu tempo.
A noção de tempo é hoje muito diferente. Queremos tudo para já, desde a resposta a uma mensagem ou e-mail até um convite para jantar. Vivemos na era do imediato; já ninguém espera por ninguém, parece que o tempo nos foge entre os dedos, sentimos que não temos tempo a perder. Só esperamos quando somos obrigados, na sala de embarque quando o voo atrasa, ou na loja do cidadão, enquanto a nossa senha não é atendida. Às vezes penso que as relações amorosas deviam passar pelo teste da senha. Nada como um compasso de espera para pôr à prova ambas as partes. Claro que tal ideia não tem bons resultados em aventuras fulminantes, tão intensas quanto fugazes, nas quais a atração e o desejo falam mais alto do que os valores partilhados, ou os interesses em comum. Lembro um episódio contado pela António Alçada Batista. Num passeio de domingo matinal com um amigo, este viu uma rapariga na paragem do autocarro alguns metros à frente e logo estugou o passo para com ela meter conversa. Quando o António estava perto, escutou o seguinte diálogo:
— Mas eu nem sequer sei o seu nome…
— E o que é que isso tem a ver com o amor, sua estúpida?
Convém não confundir urgência erótica com amor, o amor é outra coisa. O amor é uma construção, obriga ao conhecimento mútuo para lá da exploração da geografia alheia, não avança sem algumas cedências e precisa de tempo para crescer e se solidificar. Não se pratica como um desporto radical de alta competição ao nível da Champions League, envolvendo dois predadores profissionais que se divertem com a companhia um do outro.
Para muitas mulheres e alguns homens, a fila anda mais devagar, demora a avançar, o que nem sempre é sinónimo de sucesso. Por vezes, a pessoa esteve na fila do guiché errado e só quando chega lá é que percebe. Erros de perceção acontecem aos melhores, o importante é a fila andar.
Se alguém, que já fez parte da nossa vida e se foi embora, quer voltar atrás no tempo, apagar o passado recente e nos diz, “tirei uma senha para voltar para a tua vida, mas não sei qual é o meu número”, só há uma resposta possível, “a tua senha já passou”.
Quem perde a senha, já perdeu tudo. Quando o objetivo for puramente lúdico, o tempo não conta e o espaço acaba por nunca ser ocupado, porque é para o que é. Mas se houver paixão, envolvimento, vontade de estar e de ficar, não dá para desaparecer e tentar a sorte numa segunda volta. As senhas são para quem as quer agarrar. Caso contrário, a fila anda. E o guiché fecha.
