A minha mãe tem uns casacos compridos, muito inchados de esponjas ou penas, que deixam ver só um bocadinho dos pés. De capuz na cabeça, é mais coisa de habitar do que de vestir. Assim, contra vento e chuva, ela vai à pressa ao pão ou às laranjas. Quando volta diz-me para não sair, não pensar em sair, não olhar sequer pela janela, nem vale a pena levantar da cama, obriga-me a trazer mais mantas para a cama, meias nos pés e talvez gorros para a careca. No Inverno, a minha mãe pensa que os filhos são de fumo e se dispersam na aragem fria. Pensa que os filhos que andam na rua são como ao abandono e não suporta imaginar como sofrem. Por isso, as ordens são para que fiquemos quietos, agasalhados, a ler e a ver televisão, a comer e a beber chá de camomila. Se for necessário ir à rua, pensa ela ser seu ofício, mais consciente do horror que é a travessia da estação brava do Inverno.
No Inverno, a minha mãe antecipa tudo mil dias. Quer que não falte nada, a garantir que a casa tem arroz e batata, garrafões de água e a comida do cão. Tudo para não termos de sair. Que bom é não sair e, por vezes, nem escutar a chuva. Para ela, está sempre mais frio do que ontem e chove muito mais do que no antigamente inteiro. Não há melhorias de nada. Só o pior e pior ainda, porque creio que a aflição pelos filhos também lhe dá maior e maior ainda.
Passa o dia a cobrir o cão. Claro que o Crisóstomo, que tem casaco natural, espevita e se põe a cheiretar os seus assuntos pelos cantos da casa, mas ela chama-o e deita-o como se fosse sempre hora de dormir. Se eu deixar, faz o mesmo comigo. Traz a manta para os ombros, afaga-me a cabeça para me dar sono, considera que se eu fosse esperto adormecia em modo hibernado e regressava à sociedade em Abril, certamente só no fim de Abril, para a revolução portuguesa e para ver o fim das chuvas.
Além disto, não há sobras de pão porque ela faz tostas e parece-lhe que termos tostas sustenta meia fome. Mergulha-as na sopa ou no chá, desconfia do queijo de barrar, prefere a manteiga das Marinhas e queixa-se de engordar, o que é uma lástima que prejudica a roupa que tem comprada. Quando passarem as chuvas mais ferozes, como sempre, metemo-nos nos shoppings a ver os saldos e a comprar coisas novas para parecermos também novos e nunca vistos. É o que a roupa faz. Muda cor e corte e aparecemos como se pela primeira vez diante dos olhos de quem nos conhece. Com isto, haverá de passar o Inverno. Chegaremos à graça do calor outra vez.