Margarida Rebelo Pinto

Agosto já passou


Pertenço à geração que se apaixonou pela obra de Gabriel García Márquez. Mergulhei com entusiasmo febril na saga da família Buendía em “Cem anos de solidão”, e com ele aprendi como é divertido trocar as voltas ao leitor no tempo, deixá-lo confuso e atordoado com truques de escritor astuto e brincalhão. Saboreei cada parágrafo de “O amor em tempos de cólera”, relevando a índole machista do seu protagonista, o homem que literalmente usava como desculpa o coração partido por uma donzela inacessível para se deitar com todas quantas podia. Em “Crónica de uma morte anunciada”, fiquei presa à estrutura concêntrica da narrativa que culmina num fim inevitável, porém, cheio de suspense. Gabriel, que foi prémio Nobel em 1999, tinha vários rituais; um deles era escrever num quarto semelhante nas suas várias casas, com a mesma secretária, o mesmo candeeiro e a mesma cadeira e com a janela do mesmo lado.

Quando nos apaixonamos por um escritor, é apenas natural querer conhecer toda a sua obra, embora saibamos de antemão que, em algum momento, iremos sofrer uma deceção. Com Gabo, aconteceu-me este verão e tive pena. “Vemo-nos em agosto” conta as aventuras secretas de Ana Madagnela Bach, cinquentona, que todos os anos regressa a uma ilha para visitar a campa da mãe e ter uma aventura extraconjugal. A sua vida passada e presente é relatada com sensibilidade e precisão. O leitor imagina-a de cabelos ao vento na proa do ferry que separa o seu mundo normal do mundo extraordinário, e depois, sentada em bares de hotéis, inebriada em jogos de sedução no quais não é caçadora nem presa. Sente o seu coração a bater mais depressa e os seus músculos entrarem em tensão, vibra com os seus sobressaltos e compadece-se de compaixão perante os seus momentos de solidão e de tristeza.

No entanto, algo não bate certo nesta narrativa. Para mim, enquanto escritora e enquanto mulher, a razão é evidente: nunca conheci nenhuma mulher que sentisse ou agisse como ela. O seu modus operandi afigura-se a meus olhos demasiado masculino para ser credível. Aceito que a minha opinião possa ser considerada sexista, mas é do senso comum que as relações fora do casamento têm origens diversas nos homens e nas mulheres. Os homens têm sede de sedução, alimentam-se de variedade e validam-se pelo número de conquistas. Existem mulheres que são assim, mas vejo-as como exceção. As mulheres buscam romance, carinho e atenção, agem por sentimentos mais do que por instinto. Nem as mulheres são seres de virtude, nem os homens de vício. Contudo, a vida foi-me mostrando que uma mulher precisa de uma razão, um homem de um lugar. Ana Magdalena é retratada com uma mulher, mas age com um homem. Gabo dizia que um bom romance deveria ser uma transposição poética da realidade. Não é o caso.

Embora tenha passado belas horas de leitura, revolta-me que os seus filhos tenham decidido publicar uma obra inacabada, que espelha a diminuição de faculdades de um talento ímpar. Gabo quis queimá-la, a publicação póstuma é um insulto à sua vontade.