Amar o caos
É domingo de manhã, esse a que os cantores chamam o momento mais descontraído da semana, e eu estou sentado à mesa da velha cozinha familiar, onde os meus antepassados deram cabo uns dos outros e leram o Almanaque do Camponez. A certa altura passa o meu filho, a caminho do balde do lixo, e leva o plástico de um pacotinho de bolachas na mão. Enterneço-me: um menino incrível – que crónica poderia eu escrever agora, se já é tão pouco menos do que perfeito? Então, ele deita o papel ao lixo, volta a tapar o caixote, atravessa de volta a cozinha e senta-se no chão a comer as bolachas, que afinal espalhara pela tijoleira, de permeio com restos de comida encontrados na tigela do Gauguin e mais uma coisa verde que avisto daqui e parece-me que não quero ver mais de perto.
É a minha vida, hoje: o caos. Ontem fomos almoçar a São Mateus, com o João a Tia Finita, e passei a refeição toda a correr atrás dele, sorrindo aos circunstantes, sem jeito: “Eh eh, eu aqui já com idade para ser avô, e afinal…” Em casa, é pior. Está tudo sujo, não se encontra nada, qualquer coisa pode ser perigosa. Olho-o a armar confusão e adoro-o: que lindo, ele a apropriar-se do mundo – mas dali a pouco já estou em pânico de novo, porque ele agarrou na faca do pão pelo gume e anda a brandi-la no ar, porque eu lhe fui tirar a faca e ele começou a desenhar com caneta de acetato na louceira, porque eu fui esconder a caneta e ele deu em brincar com os bicos do fogão, porque eu fui acertar o fogão e ele decidiu abrir o armário dos detergentes, porque eu fui arrumar os detergentes e ele, já com um ratito, rapou a tigela da Colette também.
E depois são as mãozinhas. Oh, quantas mãozinhas terá o meu filho? É como uma hidra de mãozinhas: agarra-se numa mãozinha e nascem duas mãozinhas, fixam-se as duas mãozinhas, num quase alívio, e afinal há mais três pares de mãozinhas a fazer asneira debaixo da mesa. E está tudo certo, é assim mesmo, porque se for doença é muito pior. Mesmo ligeira já será uma tragédia: alguém tem de ficar com ele, a livraria derrapa, a ginástica desmorona-se, não há livros, nem crónicas, nem sequer e-mails. E, se algum dia for doença a sério, nem quero pensar.
Só nos resta amar o caos. E, de repente, ele ri-se a bandeiras despregadas porque um dos cães se pôs de rabo para o ar à procura não sei do quê debaixo da bancada. Ou está a dar de comer ao garfo, com a colher cheia, insistindo: “Abre a boca, garfo! Abre a boca!” Ou então abateu-se um silêncio sobre a casa, nós alarmamo-nos logo, mas afinal ele fechou-se no escritório, muito bem sentadinho à secretária, a desenhar: “Uma bola… Outa bola… Outa bola…” Onde se encontra alegria depois disto?
*O autor escreve de acordo com a anterior ortografia
