Margarida Rebelo Pinto

Cada vez mais distantes


Gosto de procurar respostas para a perplexidade do mundo na voz dos poetas. Ernesto Cardenal foi um escritor nicaraguense, considerado um dos mais importantes poetas da América Latina. De rebelde guerrilheiro da Frente Sandinista Nacional de Libertação a ministro da Cultura com a derrota de Anastasio Somoza, passando por uma década de vida monástica entre os monges trapistas pelo meio, a sua vida e obra encarnam o clássico herói da modernidade: idealista, aventureiro, espiritual e artista. A sua poesia é um mergulho na realidade em que cresceu, se afirmou e perdurou como uma referência política e literária. Há poucos dias, um excerto de um poema que escreveu chamou-me a atenção para a condição masculina e a crise crescente e sistémica no que concerne as relações afetivas e amorosas. “Contaram-me que estavas apaixonada por outro/ e então fui para o meu quarto/ e escrevi um artigo contra o governo/ razão pela qual estou preso.”

No hemisfério norte do continente americano, Scott Galloway, professor na prestigiada New York University, vem alertando o Mundo para as transformações que têm ocorrido na última década e meia entre os adolescentes e homens. O seu discurso é frequentemente focado na perda de força e de relevância da voz e da ação masculinas. Recentemente, fez uma previsão assustadora sobre o futuro das relações. Galloway acredita que no futuro próximo os homens poderão ter uma namorada criada pela Inteligência Artificial, que lhes dará aquilo que precisam, sem que tenham de dar nada em troca. Uma relação na qual irão alcançar a gratificação emocional e sexual sem esforço nem custo, o que lhes dará ainda mais desculpas para não se envolverem nem se comprometerem com ninguém. Esta possibilidade já foi retratada no filme “Her”, lançado em 2013, sobre Theodore, um escritor solitário, que se envolve com um programa de computador altamente sofisticado. O que era pura ficção há uma década, começa a fazer parte da realidade, roubando à realidade física e primordial aquilo que por direito lhe pertence.

Nunca o amor foi tão alimentado pela imagem e pela ilusão. Os homens distraem-se facilmente, deixaram de seduzir no recreio da escola, nas discotecas, nos bares e nos bancos de jardins. Já não lutam nem caçam, nem dão o peito às balas por causa políticas. Vivem reféns atrás de um ecrã, onde procuram uma aventura fugaz ou uma parceira para uma relação mais séria no éter das redes. Se é apenas natural que os meios virtuais sejam o meio predominante para estabelecer contactos que podem levar a uma relação amorosa, é bizarro que o ser humano alcance um grau de alienação tão profundo que prefira uma relação com uma fantasia do que com uma pessoa.

Homens e mulheres estarão cada vez mais distantes. Saudades dos tempos em que se discutia quem era de Marte e de Vénus, de forma simbólica, porque vivíamos todos no planeta Terra e com os pés no chão.