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Como lidar com um familiar tóxico

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Um pai, uma mãe, um irmão. Por ser família, há a tendência para aceitarmos uma relação que nos agride e faz mal sem nada fazermos. Mas não tem de ser assim, até porque também temos um papel aqui. Há estratégias para nos protegermos e, sim, o afastamento total, não sendo o mais comum, no limite, pode ser o caminho.

A máxima é conhecida e todos já a teremos lido ou ouvido algures: afaste-se de pessoas tóxicas. O nosso bem-estar depende muito das pessoas com quem nos relacionamos e o convívio com alguém nocivo gera muito desgaste. Só que acabar de vez com o contacto é bem mais difícil – e a questão torna-se complexa – quando se trata de um familiar próximo: um pai, uma mãe, um irmão. Mas há estratégias para lidarmos com estas pessoas.

Comecemos pelo princípio. O que é uma pessoa tóxica? “A expressão vem daquilo que nos faz mal”, resume Filipa Costa Macedo, psicóloga clínica. Ana Isabel Lage, psicóloga da educação e membro da direção nacional da Ordem dos Psicólogos, vai mais longe e aproveita para desmistificar o conceito. “Muitas vezes, não é a pessoa em si que é tóxica. Ou seja, esta não é uma característica da pessoa, que teria de ser tóxica para toda a gente e isso nem sempre é assim. Temos de nos centrar mais na relação. A forma como vivemos a relação é que pode ser tóxica. E o que é isso? É uma relação que é prejudicial ao nosso desenvolvimento, que nos traz mal-estar, que nos causa sofrimento, que nos agride, emocional ou até fisicamente.” Isto é válido mesmo quando se trata de alguém com traços narcisistas, autocentrado, com falta de empatia. A psicóloga simplifica. “Essa pessoa será tóxica na medida da forma como estabeleço uma relação com ela, de como permito que me transmita essa toxicidade. O sol é tóxico? Em si não é, mas se nos expusermos demasiado à radiação, sim.”

Significa, então, que podemos proteger-nos a partir do momento em que temos noção de que a relação é tóxica, ora porque “nos humilha, nos impede de nos expressarmos livremente, de nos realizarmos, ora porque a outra pessoa é punitiva, agressiva, porque nos julga”. Mas antes de lá chegarmos, convém recuarmos no tempo e entendermos o impacto que estas relações, tratando-se de um familiar próximo, tiveram na nossa vida e no nosso desenvolvimento até aqui. Segundo Ana Isabel Lage, as marcas que deixam são óbvias. “Quando a relação tóxica é com um pai, uma mãe, um irmão mais velho, pessoas que à partida temos como referências e que eram muito exigentes ou muito punitivos, pouco apoiantes, que desvalorizavam esforços, que diziam ‘tu nunca vais ser ninguém na vida’ ou ‘tu nunca fazes nada de jeito’, claro que isso mina e corrói, fragiliza a estrutura emocional e a formação da identidade.” Isso reflete-se, mais tarde, em “pessoas inseguras, com pouca autoconfiança, que têm dificuldade em lidar com a rejeição, que arriscam pouco, com discursos de ‘não mereço ser feliz’, ‘não mereço um trabalho melhor’ ou ‘não mereço uma relação melhor’, precisamente porque se sentiram vulneráveis e desamparadas no seu desenvolvimento”.

Dito isto, olhemos para o agora, para a forma como estas relações tóxicas com parentes próximos vão mexendo connosco já enquanto adultos. Filipa Costa Macedo não tem dúvida de que geram “aumento da ansiedade e dos medos”. “O caso que me chega mais vezes ao consultório é quando nasce um primeiro bebé na família, o primeiro da sua geração, e os avós começam a ditar como acham que se deve fazer certas coisas e o que se fazia no tempo deles, o que pode levar os pais do bebé a sentirem esta presença como tóxica, porque lhes gera ansiedade.”

Feito o preâmbulo, as estratégias para nos protegermos podem levar tempo a aprimorar, mas é possível. Perceber que o podemos fazer é o primeiro passo. Vivendo na mesma casa tudo se torna mais difícil, como reconhece a psicóloga, “mas há várias divisões e podemos evitar estar no mesmo espaço para nos protegermos”. Não vivendo na mesma casa, é possível “ir menos vezes almoçar ou jantar a casa desses familiares”, também “pedir ajuda a outros parentes, para que intervenham quando a conversa está a descambar”. “Ajuda sempre ter uma rede de apoio”, explica Filipa Costa Macedo. É ainda importante, sugere a terapeuta, “tentar fazer com que a outra pessoa perceba os efeitos que as suas atitudes geram”. “Muitas vezes, a pessoa é vista como tóxica e intensa, como alguém que nunca vai mudar, e se explicarmos de forma não acusatória que nos está a magoar, podendo não compreender, até pode ser capaz de aceitar e tentar fazer diferente no futuro. Tratando-se de alguém que não tem capacidade de empatia, aí o mais provável é que não haja mudança.”

Por isso, o segredo maior está em focarmo-nos em nós. “Claro que quando uma pessoa me está a atacar é sempre violento. Mas se trabalhar as minhas próprias fragilidades individualmente, depois ao ouvir uma crítica, uma provocação, consigo ter mais confiança e discernir que é algo em que estou a trabalhar.” Ana Isabel Lage tende a concordar, até pela sua experiência clínica. “Há imensos casos que vou acompanhando de pessoas que têm relações que trazem um grande sofrimento emocional e psicológico com irmãos, pais, cônjuge, sogros. E importa fazer questões. Qual é o meu papel nisto? Como é que estou a alimentar também esta toxicidade? Ou a permitir que me intoxique?”, alerta. Trabalharmos em nós, alterar a forma como comunicamos com esta pessoa e como permitimos que ela comunique connosco é o caminho. “Também tenho um papel em aceitar que esta pessoa fale comigo desta forma e posso mostrar que não aceito.”

Vamos a um exemplo prático que Ana Isabel Lage já teve em consulta. “Uma relação de irmãs. A mais velha sempre fez com que a mais nova sentisse que não tinha valor. Uma vez, a mais nova fez uma pergunta corriqueira à mais velha, que lhe respondeu de forma agressiva. Então a mais nova explicou-lhe que fez apenas uma pergunta e afastou-se, saiu daquela divisão, para mostrar à irmã que era ela quem estava errada.” A relação pode nunca chegar a ser positiva, mas pelo menos criam-se limites, espaço, para deixarmos de nos sentir “agredidos, invadidos, ultrajados ou punidos pela outra pessoa”.

Apesar de todas as dicas, muitas vezes estas são relações antigas, que se desenharam na infância, numa fase de menos autonomia, cuja dinâmica é muito difícil alterar, e o afastamento pode mesmo ser a solução. Às vezes, um afastamento temporário já tem resultados. “Passar uma temporada afastada de forma intencional. Afasto-me porque preciso de saber mais sobre mim. Muitas vezes são pessoas que nem têm noção que têm características positivas e esse autoconhecimento é importante”, refere Ana Isabel Lage. Pode passar por ir viver para mais longe, mesmo sendo na mesma cidade, ou até por mudar de cidade. Quando voltamos a aproximar-nos, diz a psicóloga, “já chegamos com outra estrutura emocional”.

Contudo, se a outra pessoa nos “adoece”, se nos traz muitas emoções negativas, raiva, frustração, humilhação, mágoa, um corte completo pode ser a resposta. Mas não é o mais comum. Pelo facto de ser pai, mãe, irmão, “vamos aceitando, permitindo a agressão, mas isto é uma falácia, estamos a dizer-nos que é muito importante estar em família quando na verdade estamos a odiar”. O corte não tem de implicar uma rutura com a família toda (embora isso possa acontecer), mas exigirá momentos difíceis de gerir. Marcar presença em almoços ou jantares de família poderá deixar de ser possível. “Porém, o facto de deixar de falar com o meu pai, por exemplo, não implica deixar de falar com a minha mãe. Será em termos diferentes, mas consigo falar com ela ao telefone, combinar um café.”

Por fim, há um ponto que importa destacar: manter uma relação que nos faz mal contamina todas as outras. “É curioso achar que só tenho um problema com esta pessoa que acho tóxica, quando na verdade isso influencia toda a minha vida. Não é assim tão estanque. Posso pensar que só fico mal quando vou lá a casa e tenho de lidar com o meu pai, a minha mãe ou a minha irmã, mas aquilo fica dentro de mim”, avisa Ana Isabel. Quanto mais conseguirmos que essa relação seja menos tóxica para nós, mais positivas vão ser as relações que temos com outras pessoas. “Porque, sem darmos conta, acabamos a incorporar esses formatos de comunicação e a usá-los, a repetir um padrão. Quanto menos toxicidade recebermos, menos vamos transmitir às relações com outros familiares, amigos, colegas de trabalho.”