Publicidade Continue a leitura a seguir

Cortina de fumo

Publicidade Continue a leitura a seguir

Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

“Mais belo do que o canto de um pássaro é o seu voo; pois nem todo o canto é de alegria, mas todo o voo é de liberdade.” Sábias palavras de Mia Couto, uma das penas mais originais da literatura de língua portuguesa, certamente das mais livres. O tempo e a liberdade são dois conceitos que nunca abandonam o meu espírito. O tempo, por tão misterioso e cíclico, contrariando o sonho ingénuo da evolução da Humanidade para melhor, e a liberdade, por nunca estar segura nem garantida. Os ventos de mudança parecem finalmente estar a chegar ao Irão, um dos países mais violentos em relação às mulheres e aos seus direitos, flagelo que a comunicação social parece ter esquecido, entre a febre do futebol e as confusões sobre o que se passou nas eleições em França, metendo no mesmo saco a Direita Radical e a Extrema Direita e festejando a vitória da Esquerda como se esta fosse toda igual e como se a realidade fosse preta ou branca, dividida entre bons e maus.

Por cá, a violência doméstica não abranda. Segundo um relatório divulgado pela Procuradoria-Geral da República no início do ano corrente, 30 pessoas morreram em 2023 em contexto de violência doméstica. Entre as 22 que perderam a vida às mãos dos seus carrascos de trazer por casa, 17 eram mulheres. Oito carrascos suicidaram-se logo após terem cometido o homicídio. Ora esta vocação para a tragédia, que referia na crónica aqui publicada na semana passada, enquanto uma qualidade literária, só serve a arte e a literatura. Pôr termo à vida, seja à própria ou a de alguém, é a negação primordial da liberdade.

Temos muito que pedalar, agora mais do que há duas décadas, para não perder a liberdade. A polarização crescente provocada por fatores económicos está a atirar o Mundo para uma atmosfera de intolerância cada vez mais densa e tóxica, alimentada pelo populismo. A este quadro enevoado acresce a distopia que transpira nos órgãos de comunicação, lançando mais fumo sobre a realidade. Sem tempo nem espaço para explicar e contextualizar, é triste verificar o empobrecimento do discurso em alguns meios de informação. Se é verdade que o tempo é o que fazemos dele, também acredito que a liberdade é valor mais importante da Humanidade. Existe, ou devia existir em todos nós, a consciência cívica de a cultivar e de a defender, fazendo oposição a todos os atos e palavras que pretendam quartá-la. Citando outro grande vulto da nossa literatura, Vergílio Ferreira: «Tu és livre, É portanto do teu dever libertaras-te».