Cumulonimbus
Portanto, agora estamos na fase das birras. Parece que o cerebrozinho deles não sei quê, face à incapacidade de não sei quantos, em momentos de frustração que, evidentemente, já se sabe. Em suma: é a terceira guerra mundial. Porque a chucha caiu ao chão, porque o iogurte só tem 125 ml, porque o Pato do Pocoyo falhou um lançamento da linha de três pontos – é como se a Alemanha invadisse a Polónia outra vez e o nosso filho fosse surpreendido para lá das linhas inimigas.
Ainda só aconteceu meia dúzia de vezes, mas o estertor é de tal ordem que, ainda antes de me afligir, eu dou por mim a olhar para ele com fascínio. Ocorre uma tal falência da linguagem, incapaz de fazer face a esse caldo de emoções que de repente se reúne como um cúmulo-nimbo – isto é, de modo totalmente aleatório, no local mais inesperado e completamente sem aviso –, que só as lágrimas, o ranho e os tremores se chegam à frente para ensaiar uma resposta.
E é uma vertigem. Durante dez minutos, o Artur parece pouco menos do que possuído. Chora, mas é mais como se gritasse. Grita, mas é mais como se já não lhe sobrasse a circulação, só a vontade. Da segunda ou terceira vez que aconteceu, dei por mim a admirá-lo: que desejo, meu filho. Cheguei a sentir uma ponta de orgulho: que determinação, que indomabilidade, que força é esta a do sangue do meu sangue – enfim, essas tolices. Mas agora já só o abraço, à espera de que passe.
Dizem-me que é o melhor: esperar que passe. E eu aprendi. Das primeiras vezes, até desviava o olhar. Só me faltava assobiar: a vida prosseguia. Por acaso estava ali um bebé sem voz de tanto berrar, com o ar de uma criatura já não totalmente humana, saída de um daqueles filmes de terror psicológico em que, quando nos damos conta, a menina rodou duas vezes o pescoço a 360 graus – mas a vida prosseguia.
Foi a primeira vez que o consegui, o que é mais uma coisa que tenho de agradecer ao meu filho. Sempre quis ser esse homem, o tipo capaz de manter o rosto impassível até perante as maiores ameaças. O bebé a chorar na sua cadeira, porque não quer fruta mas iogurte, porque não quer iogurte mas bolachas, porque não quer bolachas mas fruta – e eu ali, a mexer o café, teremos gás para muitos dias ou é melhor trocar já?, a ver se me lembro de comprar leite que a Marta abriu o último pacote há bocado. Senti-me poderoso.
Mas agora já só o abraço. Digo: “O papá está aqui, amor. Eu sei, eu sei, querido. O papá está aqui.” Até já aconteceu não dizer nada. De qualquer modo, é verdade, não resolve nada. Parece que não há grande coisa para resolver.
