Joel Neto

Curiosidade


A verdade é que não é só a – digamos – motricidade rústica que agoniza: é a própria curiosidade. Há dias, um millennial alarmou-se porque um candeeiro não acendia, eu sugeri-lhe experimentar trocar a lâmpada e ele confessou que não fazia ideia de como se fazia isso. Umas semanas antes, uma generation Z avisou-me de que uma corrente tinha desaparecido e eu aconselhei-a a ir ao Nildo Neves, comprar dez metros de cabo de aço, dois cerra-cabos e um cadeado, pedindo aos rapazes do Duarte para lhe montarem os cerra-cabos com uma argolinha, mas ela nem chegou a esta parte da conversa:

— O que é o Nildo Neves?

O Nildo Neves é uma das lojas mais antigas de Angra. Fica na Rua da Sé, a principal artéria da cidade, e a alguém que não interessem nem as ferramentas, nem a bricolage, tinham de interessar pelo menos – pensava eu – o mobiliário antigo, aquela miríade de gavetinhas que há alguns 400 anos o fundador decorou com parafusos de todos os feitios, cores e tamanhos. Nunca me tinha passado pela cabeça que houvesse um angrense que a pudesse ignorar. Mas um curto inquérito entre a restante juventude disponível – vivo, convivo, trabalho e interajo com muita – mostrou-me que mais depressa encontro quem nem saiba que aquela metade de cima da rua ainda é Rua da Sé do que quem conheça as diferenças entre um cerra-cabos, um esticador e um elo de engate.

— É natural, as pessoas já não precisam de saber isso – suspirou um contemporâneo com quem partilhei a perplexidade.

— Entretanto, tu e o teu millennial vão parar a uma ilha deserta, tu com uma caixa de fósforos, um canivete e um cantil de água e ele com um computador quase sem bateria, e o mais provável é que seja ele a sobreviver.

E talvez seja. Mas por necessidade, não por interesse – o busílis é esse. Estas novas pessoas olham para uma casa habitada e não chegam a entusiasmar-se com o modo como possa ter sido iluminada para se habitar. Vêem deslocar-se um carro e não se perguntam sobre como se verte o consumo de energia em propulsão. No tempo em que nós tínhamos a idade delas, um inepto funcional chamava lima a uma grosa e esquecia-se de que chave phillips e chave-de-fendas serviam para coisas diferentes. Hoje, um inepto funcional é aquele que nunca apertou um parafuso. Alguém que consiga montar um banquinho do Ikea é considerado um bricoleiro de largos recursos, que bem podia lançar-se como biscateiro e fazer o primeiro milhão para a semana.

E não é que o Mundo esteja perdido, não. Tão-pouco isto é o tempo deles: é o nosso tempo também, e nós temos uma responsabilidade. A minha passa por empenhar-me em que o meu filho não seja desprovido de um mínimo de curiosidade por aquilo em que sustenta o seu modo de vida.