Curva perigosa à direita
A vitória de Trump é uma lição de História e um alerta gigante para a Europa. Os Estados Unidos cansaram-se do wokismo, que, sob uma capa de tolerância e de defesa das minorias, quis impor o policiamento na linguagem e o cancelamento de todas as vozes que não alinhassem com os seus ideais ditos progressistas, ditos modernos, ditos esclarecidos. O wokismo tornou-se bandeira do Partido Democrata e foi o seu cavalo de Troia. O cidadão comum não quer que quem está no governo se preocupe mais com os imigrantes e com as minorias do que com ele. Nenhuma mãe com dois dedos de testa aceita que os filhos possam iniciar um processo de mudança de sexo antes dos 18 anos sem o seu consentimento, como permite o estado da Califórnia. A bela e sexy Califórnia que nos habituámos a ver em filmes e em séries como uma espécie de paraíso tem hoje uma taxa elevadíssima de consumo de opioides, nomeadamente o fentanil.
O número de mortes entre setembro de 2012 e setembro de 2022 vítimas de fentanil subiu 121%. As ruas de Los Angeles e de outras grandes cidades americanas estão cheias de zombies, consumidores de fentanil e de xylazine, conhecida como “tranq”. Os traficantes misturam-nas, acrescentando heroína e cocaína para potenciar os efeitos. O consumo destas drogas sintéticas leva à maior causa de morte nos EUA, uma média de 300 vítimas por dia. Este é apenas um dos flagelos de um país doente. A somar: crise na habitação, problemas com a imigração, venda indiscriminada de armas. O fosso ideológico entre as universidades chiques e o cidadão comum tornou-se intransponível. E foi precisamente com o apelo ao americano que vive na predominante “suburbia”, e que quer uma América mais segura para os seus filhos, que Trump venceu, apesar de todas as controvérsias pessoais e políticas do seu passado recente.
Um país doente não quer saber de uma agenda cultural que defende minorias, quer sobreviver e resgatar a grandeza perdida. Os americanos elegeram um bully que passou a campanha a insultar a sua adversária, destilando inverdades e demagogia barata, porque não existia uma alternativa credível. Não podemos esquecer como este país se transformou numa potência mundial desbravando terras, chacinando índios, fortalecendo alianças secretas com conterrâneos da mesma origem, idolatrando gângsteres, mafiosos, cowboys e xerifes a par com estadistas e humanistas, exaltando o deus dólar acima de todas as crenças.
Na Europa, a tentativa de lavagem cerebral através de uma agenda cultural levada a cabo pela esquerda foi fatal para os partidos de centro e de direita moderada, que não souberam, ou não conseguiram fazer-lhe frente, e fortaleceu a direita radical. Não sabemos o que passa na cabeça de um narcisista sem princípios, nem como estará o Mundo daqui a meia dúzia de meses. Mas arrisco-me a dizer que à Europa não resta muito tempo para abrir os olhos e aprender que esta curva perigosa à direita pode conduzir a uma explosão de totalitarismo generalizado.
Gostava que o famoso cliché que diz que a História se repete não fosse verdade, mas os clichés existem para nos mostrarem como é o Mundo.
