Reduzidos a um avô, em resultado de uma intrincada rede de derivas que subtraíram à aldeia irmãos, sobrinhos e outros avós – aliás, já em menor número do que de costume –, dependemos em primeiro lugar da Sónia, no fundo o quinto elemento deste pequeníssimo clã. Nunca lhe faço a justiça que devo porque sempre detestei a complacência com que muitos patrões tratam os empregados (isto é, a criadagem), reclamando para eles bravos que bem vistas as coisas são para si mesmos:
—Ai, a minha Nazaré. Não sou ninguém sem a minha Nazaré!
— Estes pezinhos de coentrada estão f’tásticos. Um aplauso para a Deolinda!
A verdade é que a Sónia é o nosso milagre: tia de factu do Artur, irmã mais velha da Marta e minha irmã mais nova, ainda acumula como empregada da livraria (provavelmente o menos trabalhoso), pronto-socorro doméstico cá de casa e baby-sitter oficiosa do agregado. Sem ela, realmente, não conseguiríamos. Só que, entretanto, também teve o seu próprio bebé – o pequeno Pedro, dez exactos dias mais novo do que o Artur – e, além disso, tem direito às suas férias. De maneira que sobrecarregamos o solitário avô, embora também aconteça impingirmo-lo a familiares do anel seguinte. E, sobretudo, que também o levamos para a livraria.
E é evidente que um dos benefícios que colecciona é o contacto com linguagens, expressões e hipóteses fora da norma, panóplia de recursos que em algum momento há-de socorrer-se a sua desenvoltura cognitiva (se é que já não se socorre). O primeiro, porém, é a relação com o outro, cultivada em boa parte com os funcionários e em maior parte ainda com os clientes.
Agora deu em andar de mesa em mesa, a entreter. Às vezes está com a Fátima, outras com aquela senhora loira cujo nome ainda nem decorei. Num momento refugia-se na salinha das crianças, a folhear um livro (“uma história”, como lhe chama adoravelmente), e no seguinte já está a rabiar entre as pernas da Bia e da Luísa, empunhando como saque uma fatia de pão. Todos os dias, no meio das solicitações, um de nós é acometido de um calafrio: “Amor, onde está o Artur?!” Afinal está na mesa da montra, a comer as batatas fritas da Ju. Uma tarde destas, já escuro, sentava-se frente a um casal americano, na mesa mais distante de nós, e riam os três a despregadas, enquanto ele fazia não sei que momice, uma vez e outra, com recurso ao menu dos lattes e a uma utilização criativa do seu próprio nariz.
E é pena, de facto, que se me tenha agora acabado o espaço, cortando ainda tão no início a galeria de personagens com que interage com cada vez maior desassombro e intimidade. Mas um dia vai ser possível recordar todas estas pessoas nos gestos, palavras e ideias dele, e esta crónica não podia acabar sem dizer isso.