Grita liberdade
Do que eu gosto menos é de lhe dar de comer. Todos os dias, ainda hoje, ouço alguém suspirar: “Começar com as fraldas aos 50, caramba, é dose…” Pois, por mim, venham as fraldas. Venham os pés e as mãos sujas de andar a brincar no jardim. Venham o nariz a pingar e o impulso de o limpar nas minhas calças. Dar-lhe de comer é que, sempre que possível, deixem estar, não faço questão.
É um trabalho que não tem sucesso, apenas graus de fracasso. Simplesmente não se conclui. Ainda por cima a Marta é uma daquelas mães que começam a educar para a autonomia mal a criança sai da incubadora. O Artur ainda não andava e já comia um prato de sopa sozinho, com a colher saltitando entre uma mão e a outra. Só que, de então para cá, somaram-se mais obstáculos do que aptidões.
Um bebé de 21 meses, ou pelo menos um bebé de 21 meses saudável, tem uma curiosidade insaciável. O que vê enche-o de curiosidade, o que toca enche-o de curiosidade, o que come enche-o de curiosidade. Com o nosso, pelo menos, é assim. Ele já podia despachar uma travessa de tabbouleh sem deixar cair um grão de cuscuz. Mas, caramba, assim não ia chegar a saber como se comportaria esse grão se, em vez de ser colocado na boca, fosse colocado no nariz. Ou num olho. Ou nos orifícios do comando do televisor.
Um bebé de 21 meses gosta de desafiar as regras da química, as leis da termodinâmica, os imperativos da lógica. Seria um bebé se não fosse antes um artista, e nenhuma oportunidade lhe parece demasiado serôdia, ou demasiado precoce, ou demasiado forçada para sujar mais qualquer coisa.
Portanto, eu sento-o na cadeirinha e ele desata a sujar. Enquanto tem fome, suja que se farta. Quando a fome começa a escassear, suja que não se farta. Às vezes parece que deixa um último bocadinho de sopa na tigela só para a derramar em cima do tampo e pôr-se a massajá-la como se ela fosse um óleo essencial. Outras vezes é a camisola que, à laia de tanto chapinhar, fica a parecer a t-shirt de uma daquelas raparigas das concentrações de motoqueiros.
E não me deixem falar da cadeira. Nem do chão à volta da cadeira. Nem da toalha de mesa que, enquanto eu desviei a cadeira para tirar uma coisa do frigorífico, ele conseguiu agarrar com os dedinhos mergulhados em óleo essencial.
Nem dos pratos, isto é. Dos talheres. Dos móveis. Do tecto. Do diabo.
Não, dar-lhe de comer é que é a tarefa. Ao pé de dar-lhe de comer, tirar-lhe uma fralda em dia de gastroenterite, mesmo em caso de incidente nocturno, é uma brincadeira de crianças.
De maneira que, aí está: às vezes vejo outros bebés, todos pamonhas, a comer com a ajuda dos pais e morro de inveja. Infelizmente, tudo no meu grita liberdade. O meu único consolo é que posso culpar a mãe.
