Minha pátria, minha língua
Há mais de 20 anos que não trabalho em empresas a tempo inteiro, por isso fico sempre entre o espanto e a estupefação quando oiço excertos de conversas entre executivos num restaurante, numa sala de espera, ou quando me dá para seguir desconhecidos na rua em busca de pérolas linguísticas, episódios com relevância narrativa ou expressões que recolho para mais tarde pôr na boca de personagens. A vida já me presenteou com frases inesquecíveis. Há algumas décadas, ouvi uma rapariga dizer a um jovem que estava a seu lado num balcão de uma pastelaria, enquanto bebiam uma bica, “não olhes assim para mim que eu não sou um bitoque”.
Contudo, não é para desfiar preciosidades deste calibre que decidi, a duras penas, escrever esta crónica. Este é um apelo a todos os portugueses que usam estrangeirismos em detrimento de vocábulos do nosso querido idioma para que mostrem mais apreço pelo nosso património linguístico. Reconheço que, depois de dois séculos de forte influência da cultura da língua francesas, era inevitável a invasão de anglicismos. Nada contra o clássico OK, mas quando se entra na deriva do ASAP e do RIP, não estamos no bom caminho para preservar e estimar o nosso belo idioma, exaltado e enaltecido por tantos e tão grandes poetas. Já imagino Camões de peito cheio, erguendo a sua espada para entrar em mais uma rixa.
A linguagem empresarial é assim como uma espécie de código de entendimento pseudosecreto que exclui aqueles que não a praticam. Para quem está de fora, torna-se terrivelmente ridícula. Imagino-me a dizer à minha mãe “tenho de desligar porque agora tenha uma call com o seu neto”. Dúvida existencial, será um call ou uma call? Faz-me lembrar aquelas pessoas que dizem “uma ménage à trois”. Ménage é masculino. Para quem quer brilhar, convém não cometer erros de concordância.
É de perder a paciência com o job, o meeting, o feedback e o report. Para mim é o trabalho, a reunião, o retorno e o relatório. Não aguento o coaching, o deadline e o budget, quando se pode dizer treino, prazo e orçamento. Citando Pessoa, a palavra é completa, vista e ouvida. Somos aquilo que dizemos e as palavras que usamos. Ninguém parece mais culto, inteligente, viajado ou interessante por usar estrangeirismos no seu discurso. Tais pretensiosismos trazem-me à memória as expressões imortalizadas pela vaga de emigrantes que rumou para e Europa em crescimento quando éramos um país refém de uma ditadura vetusta, os chamados vacances, que regressavam em agosto, com francos e marcos no bolso, animados com a construção de um chalet, tipo suíço, com telhados pontiagudos de telha preta nas encostas da Beira Interior. Troquemos as inglesices por português bem falado, articulado com orgulho nacional. Afinal, somos o mais antigo estado-nação da Europa e o quinto idioma mais falado do Mundo. A língua portuguesa é nosso património, devíamos ser mais territoriais e, porque não, ferozes na sua defesa.
