O corredor da morte
Femicídio é uma palavra ainda desconhecida de muitos. Ao escrevê-la, verifico que o meu programa de Word não a reconhece, apesar de existir desde 1976, quando a socióloga sul-africana Diana Russell quis diferenciar o assassinato de mulheres baseado no género. Russel foi concisa e precisa ao definir a palavra como o ato de matar mulheres executado por homens porque elas são mulheres. Trata-se de um crime de ódio que tem por base outro conceito amplo e incómodo, a misoginia. Podemos definir a misoginia de forma generalizada como ódio às mulheres, com a prática de sexismo hostil, que engloba violência de género, exercida de forma individual, ou enquanto um costume cultural generalizado. Em 2023, a ONU classificou o femicídio como uma tragédia global de proporções pandémicas, alertando para a falta de proteção por parte de todos os estados. Este ano, apresentou dados aos quais é impossível ficar indiferente: a cada 10 minutos uma mulher é morta às mãos de um parceiro íntimo, ou de um membro da família, e nenhum país está livre deste flagelo. Na União Europeia, alegado reduto da democracia e dos direitos humanos, são assassinadas, em média, 50 mulheres em contexto de violência doméstica. O femicídio é uma manifestação de extrema violência contra mulheres, causado pela desigualdade de género, pela discriminação entre sexos e pela existência de normas sociais que o incentivam e que protegem os autores deste crime.
Enquanto uma mulher for alvo de objetivação, seja esta de qualquer tipo, a Humanidade não conseguirá combater tal enormidade. A mulher, enquanto “coisa”, estará eternamente sujeita a ser tratada como mercadoria, pois quem a “possui”, sente-se no pleno direito de a usar e dela abusar, e dela se desfazer, se assim o entender. Foi o que fez João Pedro quando atropelou Daniela, a sua ex-companheira, passando por cima do seu corpo sete vezes com o carro no dia 6 de junho deste ano, como nos conta Helena Norte numa crónica intitulada “Todos falhamos a Daniela”, publicada no “Jornal de Notícias”, no passado dia 25, alertando para a falta de capacidade das instituições na intervenção rápida e eficaz perante estes quadros de violência. Daniela não foi a primeira vítima de João Pedro. Em 2009, matou a ex-namorada com 23 facadas. Foi condenado a 15 anos de prisão, mas saiu ao fim de 10, em liberdade condicional. O padrão de comportamento deste monstro é claro: a recusa do fim das relações, personificando horrível expressão popular, se não és minha, então não podes ser de mais ninguém.
Falhamos quando não mostramos aos nossos filhos desde pequenos que as meninas são para proteger e acarinhar, ou quando não ensinamos as nossas filhas a darem um pontapé ou um empurrão ao primeiro rapaz que as tentar maltratar. Falhamos quando fechamos os olhos a atitudes prepotentes e misóginas por parte de conhecidos, de vizinhos, de amigos ou de companheiros sobre nós, ou sobre outras mulheres. Falhamos quando pensamos que pouco ou nada podemos fazer para proteger as mulheres, quando o medo ganha terreno sobre a razão, quando deixamos que um homem apaixonado nos sussurre ao ouvido “és minha” e acreditamos que são palavras de amor. Não são.
Relevar, calar, fingir que não significam nada de mal é perpetuar o corredor da morte das mulheres em todo o Mundo. Estamos em perigo, a luta é eterna.
