Margarida Rebelo Pinto

O elogio da literatura


A literatura é uma palavra gigante que contém o Mundo inteiro. A frase sábia e sucinta foi proferida por Matthew Arnold, na sua famosa palestra “Read Lecture”, na Universidade de Cambridge, corria o ano de 1882. É na literatura que o homem apreende e entende as várias facetas de uma realidade atual ou passada. Mais do que um retrato em camadas, a literatura ultrapassa o poder de um espelho, revelando com a clareza de uma lupa atos, sentimentos e pensamentos condicionados ao tempo e ao modo em que se circunscrevem. É certo que não constrói naves espaciais, nem nos vai livrar do iminente cataclismo climático, mas é na literatura que o conhecimento se alia à criatividade e que o Mundo se expande, enquanto analisa a condição humana como uma estrutura múltipla e complexa, tão fascinante e misteriosa como as estrelas e constelações que iluminam o cosmos, estimulando a memória, abrindo as infinitas janelas da imaginação e aguçando o discernimento. Ler boa literatura torna-nos mais inteligentes e mais felizes. Através dela, desenvolvemos a capacidade de aceitar a diversidade, libertando-nos de doutrinas impostas por crenças e preconceitos sociais, religiosos ou políticos, tornando-nos mais tolerantes, e por isso, pessoas melhores.

Quando Flaubert exalta o erotismo de Madame Bovary está a abrir caminho para a legitimidade do exercício do prazer feminino. A personagem irá sobreviver-lhe para sempre, por tudo o que representa nas gerações seguintes, até ao dia de hoje. Por vezes, a literatura também tem o poder de salvar vidas, contribuindo para que a verdade venha ao de cima, repondo a justiça. E quando Émile Zola decide escrever o manifesto “J’accuse” em defesa do capitão Alfred Dreyfrus, injustamente acusado de traição à República Francesa, citando os nomes de todos os implicados na acusação, consegue virar o jogo em favor do militar através de uma forte viragem na opinião pública. Zola, que era o maior escritor do seu tempo, arriscou a prisão e seguiu o conselho do seu advogado em sair de França, mas Deyfrus recuperou a inocência e a honra.

Outras vezes, a literatura projeta o futuro. No maravilhoso romance de Philip K. Dick “Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?” estão descritos artefactos tecnológicos que entraram para o quotidiano, como o reconhecimento facial. A obra, publicada em 1968, deu origem ao filme de culto “Blade Runner” em 1982, que nos mostra o planeta Terra destroçado após um desastre nuclear, habitado por homens cansados e androides mais fortes e mais inteligentes, imunes à dor, e com memórias implantadas para encenarem empatia e serem confundidos com humanos. PKD, como era conhecido, viveu e escreveu apaixonado pelo seu tema de vida: o que constitui um verdadeiro ser humano. Huxley também desenhou o futuro em obras como “Admirável Mundo Novo”, projetando estruturas sociais sem base familiar e bebés nascidos em laboratório, mostrando que a ficção pode ser um prenúncio da realidade.

O Mundo inteiro cabe na literatura, sem ela podemos continuar vivos, mas seremos mais tristes, engolidos por uma entropia tão fatal quanto o cataclismo climático.