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O meu objeto: o carro de Luísa Costa Gomes

Luísa Costa Gomes acaba de lançar “Visitar amigos”, um novo livro de contos da multipremiada autora lisboeta (Foto Rita Chantre)

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O objeto escolhido pela escritora.

“Já há tempos que venho especulando sobre o número médio de objetos que se têm em casa. Não é cálculo fácil. Parece que na Califórnia chegam aos 300 mil. Como não quero acreditar que tenha 300 mil coisas em casa, opto por 50 mil. Em termos de sociologia especulativa, não é nem mais nem menos provável. Mas é sempre excessivo. Não usamos a maior parte dos objetos que temos. As casas têm camadas de inutilidades, curiosidades, antiguidades, velharias e aquilo que responde pelo termo geral de bugiganga.

Há muito que entrei em ‘decluttering’, desacumulação, ou seja, como nós diríamos: limpeza profunda. Há uma primeira fase do ‘decluttering’ em que tudo se encarniça em mostrar-se insubstituível. Mas, tomando-lhe o gosto, vai-se por ali fora em vertigem metafísica.

De qualquer modo, salvam-se os objetos insubstituíveis e cuja utilidade quotidiana não se discute. Poucos poderão comparar-se ao meu carro em todas as categorias objetivas e subjetivas. Não tem mudanças, é levíssimo de conduzir, tem um cheirinho a elétrico, chamam-lhe híbrido, o que é um bocado ofensivo, mas ele tem boa natureza – e é o meu meio de transporte. Leva-me para onde quero ir, é confiável, tem cumprido a função. Daí o seu valor estimativo.”

Escritora
70 anos