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O pássaro azul

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Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

Quanto mais o Mundo se agita, mais me refugio na poesia. A poesia é o que acontece quando nada mais pode, escreveu Charles Bukowski, escritor maldito, pela vida decadente e marginal que teve, pelo vício do álcool que nunca curou, pela crueza dos temas e da linguagem que não foram mais do que um espelho fiel e sincero da sua existência. Embora os seus contos e romances tenham atingido êxito mundial depois da sua morte, é na poesia que se consagra de forma sublime, qual fénix que renasce das cinzas e cruza os céus em todo o seu esplendor. Dele recordo com frequência o poema “Pássaro Azul”, que define a atitude que os homens têm perante o amor e a fragilidade que este sentimento lhes inflige. “Tenho um pássaro azul no meu coração que quer sair/ mas sou demasiado forte para ele/ digo-lhe,/ fica no teu lugar, queres dar cabo de mim?” O poeta escreve que é muito esperto porque só o deixa sair de vez em quando, à noite, quando toda a gente dorme, para depois o fechar de novo na gaiola. O pássaro canta, o poeta não o deixa morrer, sabe que a ave tem o poder de fazer um homem chorar, mas um homem não chora, pelo menos é nisso que ele quer acreditar, sabendo que não é verdade. Portugal sempre foi um país de poetas. El-rei D. Dinis escreveu “Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo?”. Na época medieval, o vocábulo amigo era designação para pretendente desejado, amante sempre secreto, porque não se esperava encontrar amor no casamento. Tal designação mantém-se atual, sobretudo para solteirões inveterados com terror ao compromisso que gostam de chamar amigas às suas aventuras mais constantes, teimando em manter o pássaro azul cativo na sua gaiola.

Os sonetos inflamados de Camões, “Amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer”, fazem tanto parte do nosso quotidiano quanto a bica depois do almoço. Há sempre uma dor mansa que atravessa a poesia portuguesa, como se a tristeza não pudesse nunca ser dissociada do amor.

É interessante notar que, apesar de sempre termos sido um país dado ao machismo bacoco, as poetisas tiveram direito a voz; ainda no século XVI, Sóror Violante do Céu se confessava, “Não quero sem Silvano já ter vida/ Pois tudo sem Silvano é viva morte”. Florbela Espanca massificou o prazer pela poesia num tempo em que já se faziam best-sellers e está mais viva do que nunca com a sua loucura hiper-romântica. “Minha alma de sonhar-te, anda perdida/ Meus olhos andam cegos de te ver.” Florbela cultivava a tristeza a diário, Natália Correia exaltava o poder feminino. “Andorinha indemne ao sobressalto/ Do tempo, núncia de perene primavera/ Confia. Eu sou romântica. Não falto.”

As mulheres faltam pouco ao amor, por isso sobre ele escrevem com tanto orgulho. Já os homens vacilam, baralham-se, arrependem-se, mas amam tanto como nós. Fernando Assis Pacheco bem o explicou quando escreveu, “Que me importa agora, que me importas?/ que batam, se não és tu, à porta?”. O amor leva ao abandono e à entrega total, como bem explicou Jorge de Sena em “Como queiras, Amor, como tu queiras/ de frágil que és, não poderás salvar-me./ Será mais duro do que morrer, talvez/ Entregue a ti, porém, eu me dedico”. Bom saber que alguns homens soltam o pássaro que escondem no coração, chegando assim mais perto de si mesmos.