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Os sonhos

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Sonhei que tinha de voltar a viver na casa da minha mãe e, para isso, teria de instalar o meu quarto na garagem, que era enorme, com tijoleira verde no chão, e onde se acumulavam móveis quebrados. Tudo quanto haveria de usar tinha uma perna partida. Para conferir equilíbrio a cada coisa usava tijolos e pilhas de livros.

Duas amigas vieram visitar-me e julgaram ser alguma moda importada que os móveis estivessem mutilados e usassem tais bizarras próteses. Como não me queriam ofender, faziam de conta que achavam aquilo bem, era interessante, embora nada se pudesse mudar de lugar com facilidade, porque uma cadeira não se arrastava para outro canto sem primeiro carregar tijolos e voltar a empilhar tudo numa insegurança até perigosa.

Eu disse: mais vale que se sentem na cama, é mais confortável. E o edredão dizia Ikea e tinha remendos de naperões como se fosse uma estranha toalha de mesa. Elas perguntavam se era da Balenciaga, que anda a fazer bolsas a imitar embalagens desprezíveis do quotidiano. E eu, envergonhado com aquilo, disse que sim. Era Balenciaga a imitar o Ikea. As minhas amigas, por simpatia, faziam de conta acreditar.
Quis servir um lanche. Por algum estranho motivo, eu só tinha de o pedir em voz alta, como se estivéssemos naquelas filas dos centros comerciais. E eu pedi e alguém trouxe uns tabuleiros que eram feitos de tábuas velhas dos tapumes de alguma obra. Também há uma marca de design que reutiliza madeiras marítimas. Eu nem disse nada. Aquilo podia ser Boca do Lobo, podia ser a Prada dos tabuleiros. O problema é que os pães tinham mordidas. Eram já em parte comidos, como se também mutilados. E para não se desconjuntarem, tinham molas da roupa que lhes davam de muletas.

Comemos e rimos todos com vergonha. E eu queria parecer feliz e bem-sucedido mas estava tão atrapalhado com aquilo que me pareceu melhor pôr música a tocar e chamar atenção para o lado imaterial da vida. Ouvimos o Burmester a interpretar Bach mas, a cada vinte segundos, um nico de som falhava e aparecia a voz de uma mulher que dizia: eu sei lá se foi o chinês. A música era incompleta, igualmente aos bocados de uma coisa e outra. Que bom que é o Burmester a tocar Bach. Que pena que os discos se tivessem de remendar com porcarias. Ainda assim, falhando tudo, eu pensei: estamos bem. Cheios de incompletudes e arranjos de improviso, mas estávamos bem. Éramos vivos e juntos. Foi o que disse: que sorte a de sermos amigos. Acordei depois.