Regresso
Voltar a casa depois de uma ausência mais longa traz sempre certo luto. Ínfimos detalhes se alteram e as coisas que se contam ficaram perdidas sem verdadeira partilha, são histórias que nos dividem, por mais que queiramos deter o testemunho de tudo quanto diga respeito aos nossos. Os nossos, à distância, são abreviações. São simplificados. As conversas telefónicas perdem o grão rigoroso de cada imagem. Dizem sobretudo o essencial e nunca lembram que todos, absolutamente todos, nos vemos impedidos de recuperar o que escapou à nossa presença. A lonjura é uma matança. Pode bem gerar novas identidades, outros dentro de nós tão ou mais férteis, tão ou mais felizes, mas a lonjura termina pouco a pouco quem éramos e quem nos eram os que amamos.
A viagem é uma necessária infidelidade. O quanto nos motiva ou agride acontece pela excepção em relação a todas as rotinas, todos os hábitos e compromissos. Tudo se adia, suspende, e o viajante inventa seu novo indivíduo com o que lhe parece ajuizado pelo prazer e, mais ainda, pela sobrevivência. Estar longe redobra a atenção à sobrevivência. Comer sem morrer, passar na rua desconhecida sem morrer, moderar com qualquer pessoa que nunca vimos sem morrer. Tudo quanto desconhecemos nos pode matar, porque estamos fora de seus códigos e não cabemos em seus afectos. Somos intrusos mais ou menos amáveis. Queremos replicar, tanto quanto seja possível e prudente, o que temos em casa, nossa constelação de amores e amizades, nossa rede de trabalho, um sistema que nos coloca em legítima expectativa de que tudo segue seguro e benéfico.
Ainda assim, o regresso implica o luto e pede a capacidade de ressurreição do fundamental. Até que nos vejamos na aparência da mesma normalidade, como se nada nos houvesse escapado, à força de reconstruirmos o sentimento de sermos dali, de uma casa e de um grupo de gente que queremos amar.
Quando regresso, com a alegria meço também o que perdi. Uma ruga mais acentuada no rosto dos meus velhos. Uma palavra mais elaborada na boca das minhas crianças. A notícia dos vizinhos que foram ou que nunca mais vieram. Tudo é prova de passar. No regresso de uma longa viagem aquilo que mais reparo é em como o passado aumenta, gordo e mais gordo às nossas costas, que dobram pelo peso e pela saudade que só sabe multiplicar.
