Segundo nível
Por outro lado, quer dizer: agora, sim, é paternidade, não? Quem é que é de facto pai de um bebé? Um bebé não é bem uma experiência de paternidade, mas de progenitura. Recebido um bebé nos braços, o que uma pessoa tem de fazer é mantê-lo vivo e seguro, tal qual os ursos polares, os suricatas da Namíbia ou os passarinhos daqui de trás do quintal. Um bebé é sobretudo um projecto. Uma cria. Tem os seus direitos legais, a dado momento até as suas idiossincrasias, mas demasiado daquilo que faz e é continua igualzinho ao que fazem e são todas as outras. Pelo contrário, um menino ou uma menina, a partir do dia em que merecem o nome de menino e menina, são já irrepetíveis. Têm um carácter, que é muito mais do que uma índole. Uma personalidade. E, então, sim, aquilo que valemos começa a vir ao de cima.
Talvez nem sempre estejamos preparados para essa revelação. Mas metade das decepções que se consagram nesta fase também têm o seu quê de injusto, de hiperbólico. Porque uma boa parte da arte de educar – percebo-o agora – é não nos atravessarmos no caminho. Evidentemente, há-os mais fáceis e mais difíceis, mais lineares e retorcidos. Mas, num cenário em que nós fizéssemos o nosso trabalho de modo exemplar, o mais provável seria vir ao de cima a melhor natureza deles. A natureza pode ser um dilema da mais variada ordem, mas não etimológico. Um menino e uma menina serão sempre, em algum grau, iguais àquilo que de facto são e tiverem de ser. Com uma paternidade de sucesso, sê-lo-ão em grande grau. E, com sorte, isso que eles são e têm de ser é bom.
Eu sinto que o meu filho é bom. Vejo-o abraçar-nos vezes sem conta ao dia – a nós, ao avô João, à Tia Romana, às assistentes da creche – e quero crer que tem a natureza de um homem bom. Vejo-o sobressaltar-se quando um dos cães guincha lá fora no jardim, ou inquietar-se quando um de nós emite um sinal de angústia ou cansaço extremo, e acredito que tem condições para se tornar uma pessoa compassiva. Vejo-o inventar uma canção a pretexto de tudo e de nada e convenço-me de que pode vir a ser criativo – ouço-o rir a despregadas com uma malandrice que ele próprio simulou para nos divertir e acho que pode ter sentido de humor. Temos sorte com a natureza dele. Temos sorte com ele. Mas a questão, agora, é se ele terá sorte connosco. Se nós vamos realmente conseguir fazer isso que nos propomos: muni-lo de autonomia, persuadi-lo a corrigir os desvios de trajectória, fazê-lo sentir-se amado – e deixá-lo florir.
Isso, sim, é paternidade. O resto, lamento, não passa de progenitura. A progenitura foi relativamente fácil.
