Somos aquilo que lemos
Agora que as férias chegaram, fico sempre feliz quando vejo uma pessoa na praia a ler. Um escritor nunca resiste à curiosidade de descobrir o que aquela pessoa, que nunca vimos e que, provavelmente, nunca mais vamos ver, tem entre as mãos. Isto porque os livros que lemos dizem muito sobre nós.
A paixão pelos livros despontou cedo, acentuada pelos três anos de algum isolamento provocado pela recomendação médica que me obrigava a repouso prolongado por causa de uma febre reumática no verão em que tinha oito anos. É verdade que me aborreci bastante, mas descobri o prazer da leitura, e quanto mais não seja por isso, agradeço à patologia que me apanhou na curva.
Quando entrei na adolescência, os livros já faziam parte da minha vida. Mergulhava com prazer genuíno nas aventuras das Gémeas da Enid Blyton ou dos heróis de Jack London. Heroínas fortes já viviam no meu imaginário, eu queria ter a coragem da Menina do Mar e o coração generoso da Fada Oriana. Somos muito daquilo que lemos, se não fossem estas duas heroínas criadas pela eterna Sophia de Mello Breyner, não seria a mulher que sou hoje.
Eu lia e imaginava tudo o que as palavras me inspiravam, sentia o medo, a alegria, os ciúmes, as paixões e os desgostos das personagens. E queria fazer daquilo a minha vida, sem fazer ideia que a escolha de tão belo ofício me obrigaria a passar tantos anos fechada em casa, umas vezes em silêncio e outras a ouvir música para me sentir menos só. Todas as profissões têm uma fatura a pagar, ser escritor é aguentar a solidão diária a que o trabalho obriga. A parte boa é que, enquanto estamos absorvidos pelo ato da escrita, não nos sentimos sós; estamos com as nossas personagens a urdir uma trama, perdidos e encontrados num mundo que existe apenas e ainda na nossa imaginação, até chegar ao papel, e depois à rotativa e depois às mesas das livrarias, para ser apanhado como uma flor e agarrado como um abraço.
O tempo entre o início de um sonho e a concretização desse mesmo sonho é longo e representa uma luta contra o tempo e contra tudo. É o lugar mágico onde dizemos tudo o que sentimos a quem nem sempre nos ouve, onde despimos a alma na esperança de que os leitores guardem com pudor os nossos segredos. É um jogo de verdade e de consequência no qual misturamos a vida com a fantasia, o passado com o presente, a realidade com a ficção, o medo com a paixão, o desejo com o juízo, num tempo e num modo inventado por nós.
Raramente, não sei se por pudor ou por acreditar que o presente é sempre muito mais importante do que o passado, volto a ler o que foi publicado. No entanto, quando um título mais antigo é reeditado e o releio por razões profissionais, encontro nele o encantamento que senti quando o escrevi e volto a sentir uma espécie de felicidade que é impossível de descrever. Somos aquilo que lemos e também nos tornamos naquilo que escrevemos.
O tempo pode suavizar os sentimentos, mas o essencial fica escrito. Para sempre. E é essa a magia da literatura.
