Joel Neto

Sono


Quase todos os dias vou ao quarto do Artur e fotografo-o a dormir. Se saio tarde da livraria, então não falho mesmo. Tenho dezenas de fotos, guardadas num daqueles álbuns do telemóvel. Numas está só fralda, por causa do calor, e nas mais recentes aconchegadinho debaixo do edredão, como já aprendeu a fazer. Em certas delas dorme quase de joelhos, de rabinho para o ar – os personal trainers chamam-lhe “retroversão da bacia”, sempre soa mais digno –, e noutras deitado de costas, pernas e braços abertos, num abandono ao cansaço. Numa está com a camisola do Sporting vestida (foi num sábado, chegou a casa tão esgotado do retoiço que não tivemos coragem de acordá-lo para o banho) e na maior parte tem o Jubas ao lado, ou espreitando por debaixo de uma perna, ou pendurado das grades do berço, tentando não cair, o que aliás o dinossauro de croché e o urso amarelo fazem com a exacta mesma dificuldade.

Enterneço-me sempre. Uma criança a dormir em paz é o que de mais próximo conheço da ideia de paraíso, e quase todas as noites o meu filho personifica esse estado com devoção. O que, por outro lado, deixa ainda mais a nu o solavanco que as – raríssimas – noites de insónia representam. Uma ocorreu esta manhã, talvez não por acaso. Eram cinco horas e cinquenta e sete minutos quando ele começou a lamuriar-se através do intercomunicador:

– Qué í pó tchião! Qué í pó tchião!

Portanto, desencadeámos a nossa resposta habitual. Primeiro, silêncio. Fracassada a estratégia, uma curta visita ao quarto, a aconchegar os lençóis. Depois, a promessa de ficar a dormir no sofá ao lado. Finalmente, a garantia de fazê-lo de mãos dadas com ele. Nada resultou: berrou a plenos pulmões durante 45 minutos, até que achámos que talvez a educação não servisse para grande coisa se ele não sobrevivesse.

A única coisa mais encantadora do que ver uma criança dormir é levar ao colo uma criança que dorme. Sobretudo de regresso a casa. Tem-me acontecido à hora da sesta, mas é melhor ainda à noitinha. A estrada num silêncio de ecos e grilos. O jardim cheirando à relva húmida do sereno. Os cães celebrando a nossa chegada. A voz da Marta, numa ternura:

— Trouxeste a mochila?

E, enfim, eu atravessando o corredor, e pousando aquele menino na cama, e vestindo-lhe o pijama, e abraçando-o de boas-noites. Em poucas outras situações na vida sou tão feliz como nessa, e em nenhuma antes dela.

Mas, é claro, há sempre a possibilidade de uma insónia. Eu ontem também me tinha deitado a ler sobre a eventualidade de o mister se mudar para o Manchester United. Estava tão desperto como ele, e provavelmente pela mesma razão.