Se buscarem no Instagram, vão encontrar o perfil oficial de um dos mais importantemente livres artistas contemporâneos do Brasil. O Victor Arruda. Do alto de seus 75 anos, Arruda é hoje um reduto de sapiência construída a partir de uma longa experiência de subversão, um certo percurso de fractura que é muito mais comum nas estrelas do rock do que nos artistas plásticos. Arruda parece, de verdade, um homem da família de David Bowie ou Nick Cave, mais do que de qualquer tradição plástica. Honestamente, a sua pintura é a fuga absoluta, ela chega de tão inusitado modo que só pode ser absorvida pela história se apelarmos ao universo mais alternativo, muito mais resistente e combativo, das fanzines e da BD. As imagens de Arruda podem ser divertidas e suas cores alegres muito nos seduzem para solaridades e diversões, mas vejo-as como protestos fundamentais, manifestos de liberdade e exuberância, onde os indivíduos se exibem numa força que poucos têm.
Eu estou convencido de que VA é um génio. Ele talvez não tenha noção da importância do seu espírito frontal e límpido, do quanto importa para completar a humanidade e fazer cidadania. Em cima disso, o que diz é pura maturação, a pérola que se fabrica uma vida inteira de escapar a alçapões e maldades, dores e inevitáveis tristezas. Eu não sei se chego à sua idade, mas admiro quem chega e se levanta inteiro na sua identidade, sem refrear o que que lhe é natural, como liberdade fundamental e esplendorosa.
Muitos dos quadros de VA podem ser os mais urgentes do Brasil, mostrando inclusive a vibrante cor que traduz o país. Poderia ser Tarsila cem anos depois, mesmamente sem tréguas e sem medo. Urgentes porque não pedem licença. São de uma honestidade inigualável. E debatem como todos nos ameninamos diante do que é comum ser escondido.
O privilégio de ter Arruda como amigo permite escutá-lo em suas declarações sem par que sempre me apanham desprevenido. Lembra-me Laerte, essa mulher magnífica. Sei que ambos têm sempre razão, mesmo quando eu discordo deles, sei que são eles que estão certos.
Dizia VA que está vivo por um erro qualquer da morte. Eu acredito que sua vida hoje é o ensaio de uma sapiência que nos serve a todos e vivo exortando-o a escrever um livro. O modo como diz as coisas é consciente da literatura, da qualidade performática das palavras. Não é só o modo de quem diz. É o de quem deixa dito, como aquele que já opera na memória, se torna memorável. Brilhante.