Joel Neto

Uma vida normal


Às vezes lembro-me dos primeiros dias. Tínhamos acabado de ir ver o outdoor que o Rui desenhara e a empresa de publicidade tinha erguido, não sem certa generosidade, em frente à Secundária da moda. Nessa altura já estávamos a trabalhar no projecto da livraria havia mais de seis meses, o que mesmo assim não representava nada, e tudo era ignorância e expectativa. Tirámos uma foto ao cartaz entre as araucárias de São Carlos, num enquadramento algo monumental que nos pareceu de bom augúrio, e fomos tomar o pequeno-almoço à cidade. Muita gente já sabia, porque o Facebook não falha, e algumas pessoas pararam a estimular-nos. Mas a senhora do café não se entusiasmou:
— Ah, isto do negócio é muito difícil.
Duas portas abaixo, à porta do restaurante, o João resumiu:
— É uma vida que é uma prisão, Joel. Estás maluco?
Em frente a ele, o Luís das decorações concedeu:
— Com o café, talvez ainda se safem. Só com livros, não têm hipótese.
Quando enfim chegámos à Rua de São João, onde os operários laboravam nas tijoleiras, pareceu-nos tudo perigosamente atrasado, talvez em risco e, em todo o caso, caro como o diabo. Às cinco da manhã do dia da abertura, ainda o cenário não era pós-holocáustico: era holocáustico mesmo. Havia trolhas, familiares de trolhas e até amigos de trolhas enfiando livros nas estantes. Mesmo assim, abrimos. Às nove, tinha a Marta ido a casa tomar duche, olhei para as coisas quase arrumadas e suspirei:
— E não é que conseguimos?
Entretanto, apareceram centenas de pessoas – todo o dia. Falhou um convidado, por morte de um familiar, mas os que desafiámos para um debate alternativo aceitaram todos. Veio a TV, venderam-se livros e torradas, o Serafim ia matando gente a rir. Uma senhora pediu uma meia de leite e nós tivemos de ir ao YouTube ver como se fazia uma meia de leite. O Artur delirava. A Marta segredou-me:
— Não sei fechar as contas à registadora.
Mas, em vez de ter um piripaque, riu-se. Voltámos para casa sem saber quanto facturáramos nem que era importante sabê-lo. Ouvimos mil vezes que tínhamos feito uma coisa do caraças e sentimos que talvez tivéssemos feito uma coisa do caraças. As pessoas que nos tinham avisado chegaram a dar-nos os parabéns. Mas, ao fim de uma semana, a senhora do café, que encontrei no grossista, perguntou:
— E tem conseguido escrever?
O João falou do Sporting e depois riu-se:
— Agora é que nunca mais escreves.
O Luís fez um silêncio.
— Sempre quero ver quando publicas novo livro.
Isto foi há oito meses. O que aconteceu entretanto persistiu La Fontaine. O curioso é que tanta gente ache que, quando nós vivemos como elas, se acabou a literatura, quando é capaz de ser ao contrário.