Fatinha Ramos vive em Antuérpia, mas o seu trabalho pode ser visto em todo o Mundo. E vai lançar um livro.
As ilustrações de Fatinha Ramos têm corrido o Mundo, arrecadando distinções e reconhecimento. E têm-na ajudado a ultrapassar momentos difíceis. Porque a arte também cura e pode trazer luz à escuridão que enfrentamos.
Começou a desenhar “muito pequenina” e, embora se tenha formado em Design Gráfico, no Porto, a ilustração manteve-se sempre em pano de fundo. Quando se mudou para a Bélgica, levou o gosto com ela e, após 12 anos a trabalhar como diretora de arte, a oportunidade de mudar surgiu. “Trabalhava como freelancer numa revista quando faltou uma das ilustradoras dos signos do zodíaco”, recorda. Realizou a tarefa e foi “um boom”.
Agora é possível encontrar a sua assinatura um pouco por todo o Mundo, em livros infantis, jornais como o “The New York Times” e “The Washington Post”, Google, Netflix, num livro para o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, sobre a artista ucraniana Sonia Delaunay, num mural de 57 metros no cais da Fonte Nova, em Aveiro, e até num edifício de Antuérpia, entre muitos outros projetos artísticos onde, não raras vezes, chama a atenção para questões como racismo, sexismo, danos ambientais e outras lutas. A qualidade do trabalho tem-lhe valido diversos prémios e distinções, como o da Communication Arts (Excellence Award) e o da American Illustration (selected winner).
Mas nem tudo têm sido “rosas”. Quando vivia nos EUA, Fatinha, que sofre de uma condição que deixa os ossos frágeis e suscetíveis a fraturas, teve um acidente grave e partiu a cervical. Para contrariar a “sentença” dos médicos, que lhe disseram que não voltaria a andar, e sair “do escuro”, agarrou-se ao desenho. Mesmo que mal, mesmo que “com o mindinho no iPad”. A menina dos ossos frágeis tornou-se (ainda) mais forte e percebeu que “a arte salva pessoas, a arte cura”.
Não é por isso de estranhar que, para intitular a exposição que esteve recentemente em Aveiro, a sua terra natal, tenha escolhido as palavras do cantor Leonard Cohen: “There is a crack in everything. That’s how the light gets in”. Foi, diz, uma forma de mostrar a quem passa “por momentos difíceis”, que pode haver “luz”. Também não é de estranhar que o seu autorretrato esteja envolto em palavras como “segunda chance” e “amor sempre”. Ou que tenha criado um osso, um fémur, “bordado” a vidro. “Frágil, mas de pé”. Como ela.
Fatinha, que até agora apenas ilustrou os outros, prepara-se para dar a conhecer as suas palavras e, nas entrelinhas, a sua “fragilidade e força”. Este mês lança “Anda”, um livro infantil que escreveu. Para dizer, a todos, que há coisas que fogem ao nosso controlo e que, “apesar de queremos ficar na nossa zona de conforto, às vezes, ao sairmos dela, descobrimos outras coisas, mais maravilhosas do que estávamos à espera”. É a vida. Anda.