
Quem sabe brincar com o Artur é a Marta. Passa horas debruçada em frente a ele, com aquele brinquedo que os Pereiras nos ofereceram, a pescar peixes e abelhas. Põe-se a cozinhar na Bimby com ele empinado num banquinho, e a certa altura já é ele quem faz quase tudo – verter o arroz, acrescentar o azeite, temperar com sal. Deixa-se a conversar com ele, a recapitular os nomes dos coleguinhas da creche, e não tarda já percorreram os familiares, os empregados da loja e o que cada um ganhou o hábito de fazer na presença dele, ou com ele, ou para ele.
Eu faço um esforço. Nas últimas semanas, até acho que tenho marcado pontos. Continuo a cantar e a dançar sem grande sucesso, mas entretanto vou encontrando maneiras de o fazer rir. Temos passado momentos adoráveis na banheira, no muda-fraldas, na borda da cama. Quando chega a hora de tomar banho, o meu filho prefere-me a mim (sempre preferiu). Na hora de dormir, a mãe até pode querer ocupar-se da tarefa, que, se eu estiver em casa, ele é definitivo: “A mamã vai-se embora e o papá fica aqui”.
Mas brincar, mesmo, é com ela, a Marta. Que incrível é a Marta a brincar com o Artur. O Artur vê a mãe e pede logo para irem brincar os dois. E, se ela pergunta que brinquedo devem tirar da cesta, nem hesita:
— Todos.
O que o ele tem evoluído com essas brincadeiras chega a ser difícil de enumerar. A linguagem, a motricidade, a empatia, as rotinas: há saltos quânticos de dia para dia. E, ao mesmo tempo, não lhe podemos pedir nada melhor do que uma ajuda. Oh, como o Artur gosta de ajudar. Anda com o miniaspirador pela casa, a catar miolos. Leva as fraldas para o caixote do lixo, com o saquinho roxo muito esticado na mão direita. Trata dos cães com zelo e firmeza, e nos próximos dias até já deve conseguir ir buscá-los ao pomar, ao fim da tarde, tal tem sido o empenho em decifrar tramelas e aldrabas.
Quase tudo isto é, em primeiro lugar, mérito da Marta. Mesmo aquilo que fui eu a ensinar-lhe é em primeiro lugar mérito dela, porque foi nela que me inspirei. E agora fiquei quase sem espaço para contar o que de facto queria contar nesta crónica, e que era a relação da Marta com a ginástica rítmica, de que divide com uma colega o treino de dezenas de atletas. Ainda há dias, ao despedir-me dela antes de mais um torneio em Lisboa, lhe olhei para o saco pesado: levava na bagagem o jantar das miúdas, porque Lisboa é cara e sempre se podia poupar um pouco.
Essa é a fibra de que é feita a mãe do Artur, minha mulher, e não por acaso quem na livraria se ocupa da contabilidade, dos recursos humanos, das encomendas, de todas as tarefas chatas. Todos os dias acho que não falo tanto dela nestas crónicas como devia.