Margarida Rebelo Pinto

Acorda, velha Europa


Em Portugal, o nome Paul Martin não soa familiar, ao contrário de Pinto da Costa, para quem o circo mediático sempre foi um meio e um fim para o seu sucesso. Confesso que, não sendo uma fervorosa adepta do desporto-rei e sem albergar no coração qualquer fação clubista, aproveitei o fim de semana passado para nem sequer ligar a televisão, escapando assim ao espetáculo de despedida do supracitado. Voltando a Paul Martin, trata-se do ex-inspetor geral da USAID. A sua demissão ocorreu no dia seguinte após ter apresentado um relatório que denuncia as graves perturbações causadas pelo processo repentino de extinção da agência. A USAID, Agência Humanitária dos Estados Unidos, deixa assim quase meio milhão de dólares em assistência alimentar em portos, em trânsito e em armazéns, sob o risco de deterioração e de desvio, segundo declarações do ex-inspetor. Paralelamente, uma ação judicial levada a cabo por um grupo de empresas privadas e organizações não-governamentais que implementaram no terreno as iniciativas da USAID, exigindo o pagamento imediato das verbas aprovadas em congresso e com contratos em execução, alguns terminados antes da tomada de posse de Trump, teve a resposta favorável do juiz Amir Ali, que ordenou o restabelecimento temporário da ajuda humanitária. O magistrado de Washington DC afirmou que o Governo não ofereceu qualquer explicação pela qual toda a ajuda externa aprovada pelo Congresso seria um passo racional antes da revisão dos programas em curso.

A vontade política em extinguir a USAID por parte de Trump e do seu, por agora melhor amigo e maior cúmplice, Elon Musk, é apenas mais uma das medidas caóticas da nova presidência americana. A esta altura do campeonato da loucura mundial que se vem instalando na parte ocidental do Planeta e que passa sobretudo pelo enfraquecimento da democracia em geral, ainda a procissão vai no adro, sendo completamente impossível fazer previsões do que pode acontecer nos próximos quatro anos. Pior do que ter um louco inconsequente à frente de uma potência mundial, é estar à mercê de dois. A atriz Jane Fonda usou as redes sociais para uma intervenção recente em que chamou Elon Musk de presidente, para resumir apenas uma parte das consequências do desmantelamento da USAID: privar a alimentação de milhares de crianças em zonas de guerra, fechar hospitais e inviabilizar programas de combate à SIDA e à Ébola em África, condenando milhões à doença crónica. Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de americanos estão em risco de perder os seus postos de trabalho.

Estamos a assistir, atónitos, a uma nova forma de estar por parte dos Estados Unidos. Trump já veio afirmar que a Europa não pode continuar a contar com a ajuda militar americana. A agenda política de Trump, (ou seria mais correto escrever de Musk?) vai abalar a Europa em tantas áreas e tão fraturantes que seria necessário desenterrar Winston Churchill para voltar a unir o Velho Continente, perante um quadro de insegurança que não existe desde o final da Segunda Grande Guerra. A Europa é lenta a reagir, já o foi com Hitler, e o Mundo está a girar cada vez mais depressa.

O Velho Continente está velho, cansado e adormecido. Ou acordamos, ou isto tem tudo para nos correr mal.