Ah, mas o pai que eu ainda não sou é esse sábio que mete os supositórios ao contrário. A Marta bem tenta, que eu sei. Já eu não tenho tafulho: abro o invólucro pelo picotado, agarro no supositório pela base, ergo-o ao alto como um foguetão e esforço-me por que o seu bico em ogiva lhe permita alojar-se no intestino do meu filho sem que este chegue a sentir desconforto, ou pelo menos o sinta o menos possível.
De tão óbvio, naturalmente, o procedimento tinha um potencial extraordinário para estar errado. Mais do que isso: para estar tão errado, tão cabal e epifanicamente errado, que bem podia tornar-se uma ferramenta para permitir um diagnóstico diferencial entre os pais que de facto justificam a responsabilidade da procriação e os que bem melhor fariam se fossem morrer longe.
Efectivamente, garante a sentença, o supositório mete-se ao contrário, em ânfora. Isto é: mete-se como deve ser, com a face plana à frente, a arranhar as mucosas do bebé, para que depois se produza um tal efeito de sucção, por via dos fascinantes paradoxos da física, que o pobre não poderia voltar a ver a luz do sol nem que quisesse. E está tão bem concebido, tão igual a si mesmo há 130 ininterruptos anos, que a um pai consciente basta deixar-se a esfregar-lhe durante um minutinho ou dois a aresta esquinada, usando os dedos como uma espécie de lixa, para que a coisa não chegue a doer assim tão mais do que se tivesse sido posta em ogiva.
Curiosamente, uma pessoa vai ver o que escreveram médicos e enfermeiros, e poucos são os que, detendo-se no assunto, mantêm certezas. Aprenderam de uma maneira na faculdade, viram sempre fazer de outra na vida real e, afinal, não conseguem decidir-se sobre qual a ideal. “Na verdade”, costumam escrever, “a evidência científica” (que é como agora se diz o antigo “está cientificamente provado que”, as redes sociais são dadas à desidiomatização) tanto serve uma solução como a outra, e no fim a decisão não parece ter tanta importância quanto isso.
Mas que importa, se na verdade não é um medicamento que está em causa, nem sequer o interesse de uma criança, e muito menos o da ciência? O que está em causa, como em tantas outras coisas – e há mercado para isso tudo, a bem-aventurança, a frase de efeito, a certeza absoluta, todos os seus desportos, psicologias e literaturas – é nós podermos pôr a pata em cima do pescoço uns dos outros e proclamar: “Ao menos eu não sou tão estúpido!”, ainda que no fundo nos sintamos tão impotentes e irrelevantes.
E eu não sei, realmente, porque é o supositório ao contrário que me põe de repente isto tudo em cima da mesa. Bem vistas as coisas, não é tão aviltante assim. Mas, ao mesmo tempo, é.