As “casas e casinhas” dos membros do Governo

À boleia da nova lei dos solos, têm vindo a público vários casos de participações de governantes em imobiliárias.


A demissão de Hernâni Dias

Tudo começou no final de janeiro, quando veio a lume que o então secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Hernâni Dias, tinha criado duas empresas imobiliárias, que poderiam beneficiar da nova lei dos solos, precisamente na altura em que o Governo preparava o decreto (o governante participou na discussão e aprovação do diploma, publicado a 30 de dezembro). A polémica levou-o a demitir-se e a ser ouvido no Parlamento para se justificar.

O caso de Luís Montenegro
O primeiro-ministro entrou no olho do furacão ao saber-se que a mulher e os dois filhos têm uma empresa, com sede na casa da família, na área da consultoria e imobiliário. Foi criada por Luís Montenegro em 2021, que deixou de ser gerente e sócio em 2022 (mas o nível do seu envolvimento depois disso ainda gera dúvidas). Em quatro anos, faturou quase 900 mil euros. Perante o caso, o Chega apresentou uma moção de censura ao Governo, chumbada no Parlamento, momento em que Montenegro falou, deu explicações, recusou haver conflito de interesses e queixou-se de “ataques estranhos”.

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deputados da Assembleia da República têm participações em empresas do setor (13 do PSD, quatro do Chega e três do PS), segundo o Bloco de Esquerda. O escrutínio alastrou-se ao hemiciclo. O próprio presidente da AR, Aguiar-Branco, ou o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, detêm imobiliárias.

“[O que está em causa] é saber os interesses que tem cada pessoa que vota e decide coisas importantes”
Mariana Mortágua, líder do Bloco de Esquerda

Mais e mais ministros
Os casos multiplicaram-se à velocidade da luz. Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, tem participações em imobiliárias. A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma, tem a maioria do capital de uma empresa com atividade no imobiliário. O ministro da Coesão Territorial, Castro Almeida, desfez-se, há semanas, da participação numa imobiliária para afastar suspeitas. E, aparentemente, há mais governantes nesta situação.