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Coragem, clareza e caráter

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Foi no final de 1999 que recebi uma chamada do “Diário de Notícias” a propor uma entrevista sobre o meu primeiro romance, “Sei Lá”, que tinha entrado para o top de vendas. Há anos que mudam a nossa vida para sempre, o meu foi o que antecedeu o final do milénio. Perguntei onde era a entrevista, responderam-me em casa da Maria Teresa Horta. Fiquei perplexa com a honra. Ainda não tinha dez anos quando rebentou o escândalo das três Marias, mas a minha paixão pela poesia já me tinha ligado à Maria Teresa através da sua obra. Os seus poemas, tão eróticos quanto curtos, ensinaram-me a essência de uma obra poética: clareza, coragem e caráter. E lá fui eu, com 34 anos, ter a casa da Maria Teresa, na Avenida Defensores de Chaves, porque ela nunca gostou muito de sair e preferia receber os entrevistados em casa. Levei umas flores singelas, ofereceu-me um chá na sua sala cheia de livros e de memórias. As nossas conversas, que resultavam em entrevistas, aconteceram mais algumas vezes, e eu sentia-me sempre um pouco estranha por ser a miúda que ela entrevistava, quando devia ser ao contrário, porque ela tinha muito mais para contar do que eu.

Disse-me que eu tinha muita sorte em poder navegar de forma confortável na liberdade, mas não percebi bem o que ela queria dizer porque nunca conheci outra realidade. O episódio em que levou uma sova no bairro do Arco do Cego, que ela contou várias vezes em entrevistas, ouvi-o da sua boca quando nos sentámos para conversar. Narrava-o sem mágoa, sem raiva, sem tristeza. Eu tentava imaginar como se sente uma mulher quando dois homens tentam atropela-la e saem do carro para a sovar deixando-a no chão dorida, ensanguentada, só porque escrevia como escrevia.

Agora que a Maria Teresa partiu, toda a gente se apressa a fazer-lhe homenagens, relatando conversas e momentos, exibe fotografias com ela e lembra a grande mulher que foi. É este o destino dos poetas em Portugal: ninguém os ajuda, protege e enaltece enquanto estão vivos, mas, assim que partem, têm direito a todas as homenagens. Felizmente, alguém se lembrou da Maria Teresa antes dela morrer, escreveu um livro maravilhoso sobre a sua vida e obra intitulado “A Desobediente”. Graças ao talento e ao invulgar amor ao trabalho, a escritora Patrícia Reis deixou-nos esse legado. A Teresinha, como ela gostava de a chamar, não foi à apresentação do livro. Nunca gostou muito de sair de casa, sempre adorou viver no seu mundo do qual o Luís, o seu marido, era uma figura central.

Por ser tão desobediente, foi uma sobrevivente. Talvez conhecesse o verbo contemporizar, talvez o usasse com superioridade e sabedoria, mas tenho a certeza que nunca praticou o verbo ceder. Interessava-se por outros escritores e pelos seus livros e, apesar de estar uma geração acima, nunca foi condescendente com o meu trabalho, nunca me tentou ensinar nada, porque não julgava as pessoas.

O tempo leva-nos tudo. Ficam as palavras, magro consolo, sombras tristes de um coração que deixou de bater.

A franzina e frágil Teresinha, com a sua voz aflautada e o seu cabelo sempre elegantemente despenteado, fez bem a um país que nem sempre lhe fez bem. Viverá para sempre na sua obra, tão bela sincera, lição eterna de coragem, de clareza e de caráter.