Os nossos pais batiam-nos. Um mais e outro menos, quase sempre com maior frequência num filho do que no seguinte – não importa, batiam-nos. Davam-nos beliscões. Puxavam-nos as orelhas. Eu acumulei um portefólio diverso, mas lembro-me sobretudo dos beliscões e dos puxões de orelhas. Não era sequer uma palmada contrita: havia uma procura da dor. Em suma, a minha mãe sabia enfiar uma unha. Por outro lado, o pai da Susana e o pai da Eunice batiam-lhes com pedaços de mangueira, pelo que podia ser pior. Lembro-me de ver o pedaço de mangueira com que o pai da Eunice lhe batia quando ela (e cito) saía da linha e de pensar: “Caramba, ainda por cima é delgada. Quanto mais delgada, pior.”
De resto, não eram só eles. Todos os nossos pais nos batiam. Quase todos. O mundo de há 40 anos era assim, ademais na ruralidade: um progenitor podia bater num filho todos os dias e, apesar disso, passar em qualquer teste de violência doméstica. Um pai tem sempre razão: os pais batiam nos filhos porque estes precisavam e mereciam. Bater-lhes era a única maneira de fazer deles homens e mulheres como deve ser. E só imaginar que isso possa continuar a acontecer, talvez até em famílias que eu conheça, com as quais tenha boas relações, causa-me um arrepio. Como se pode bater num filho? Com que motivação que não ajustar contas com a existência dele?
Enfim, talvez o meu filho ainda nem tenha tido tempo para fazer nada de verdadeiramente aviltante. E é evidente que há filhos tão rebeldes e – por outro lado – filhos tão incompassivos que não apenas podem boicotar uma educação, mas destruir uma família (até uma aldeia). Mas eu pergunto-me quando foi a última vez que alguém aprendeu alguma coisa com a violência. Quantas vezes esses filhos que saíram da linha, e por muito distintos (até opostos) que possam ser os seus desvios à norma, não o fizeram em primeiro lugar como resultado da violência, muito mais do que daquilo a que esta proclamou responder. E, finalmente, se esses pais que batem nos filhos não levaram dos seus pais também.
Num dos dias mais angustiantes da minha infância, a minha mãe bateu-me e o meu avô, pai dela, ameaçou dar-lhe “um tiro nos miolos”. Isto eram os Açores de 1981, na ressaca de um terramoto colossal, vivíamos todos em barracas. Às vezes agarro-me a isso para explicar todo aquele desespero. Mas não é impossível que a minha mãe me desse beliscões porque também o meu avô – o avô bondoso, o meu herói – também lhe batera.
Não, o Artur não vai apanhar. Tenho um amigo inteligente que ainda há dias, numa conversa sobre a turbulência das nossas infâncias, suspirou com um sorriso: “Bem, um bocadinho de trauma às vezes até ajuda”. Mas a verdade é que é melhor sem ele.