Margarida Rebelo Pinto

Do medo dos homens


O que tem a ver a crescente paixão a nível mundial por líderes déspotas com a perda de território masculino no xadrez das relações humanas? Infelizmente, tudo. Os homens precisam de recuperar o seu lugar de afirmação, tal como o pavão precisa de espaço para exibir a sua cauda. Não há nada de errado nisso, é apenas a condição humana a manifestar a sua natureza.

Enquanto as mulheres viviam circunscritas num determinado território e limitadas pelas tarefas que lhes eram atribuídas, existia uma ordem, que não era natural nem justa, mas que definia papéis fixos e estanques a cada sexo. O homem caça e luta, a mulher intriga e sonha é uma frase de Jules Michelet que nunca me canso de repetir. Em tempos, acreditei no seu poder de síntese e na sua capacidade em espelhar a realidade. Mas não é exatamente assim: as mulheres sempre caçaram e lutaram, e os homens sempre sonharam e intrigaram. Reza a lenda que Aquiles matou Pentesileia, rainha das Amazonas, por quem se apaixonou depois de lhe ter tirado a vida. As Amazonas eram uma tribo de mulheres guerreiras da região do Mar Negro que não permitiam que homens vivessem na sua comunidade, autorizando a presença masculina de forma pontual e apenas para fins sexuais. A sua irmã, Hipólita, era detentora de um cinto mágico que Hércules queria possuir, sendo esta missão a nona dos seus doze trabalhos. Um mundo no qual, por questões de sobrevivência, as mulheres caçavam e lutavam, vai-se alterando ao longo dos tempos com a versão da mulher frágil que o Renascimento criou, o Iluminismo acentuou, o Positivismo reforçou e o Romantismo condenou, fazendo delas criaturas neuróticas e fúteis, reféns da beleza física e obcecadas com casos amorosos arrebatadores, quase sempre com fins trágicos, aos quais se entregavam por vontade própria.

Ora esta não é a verdadeira natureza feminina. Um ser humano que sangra todos os meses, cujo organismo se sujeita a transformações profundas para gerar outra vidas, que sofre as dores do parto, que amamenta e que aguenta os reveses da menopausa não é, porque não lhe é permitido, ser frágil ou fraca.

Quando a mulher pede conselhos, ajuda e aconchego ao homem, está a validar nele o papel de macho protetor. Há muito que me questiono sobre a complexidade das relações de poder entre os dois sexos, tema para o qual sempre faltam respostas e explicações. Os homens têm medo das mulheres e as mulheres não entendem as razões desse medo. No campo profissional, sentem medo de que elas os ultrapassassem. No campo relacional, custa-lhes aceitar a ideia de ser o marido de fulana de tal. No campo amoroso têm medo de se apaixonar e, com isso, de ficar vulneráveis.

Enquanto mulher, acredito que, em muitas situações, os homens têm medo das coisas erradas. Medo de perder um casamento que se reduz a um acordo, de mudar de emprego quando a vida lhes mostra que estão a perder tempo, de mudar para algo melhor, apenas por ser desconhecido. Sonham, mas não dão o salto.

O medo e a vontade regem o Mundo, todos podemos escolher qual a força que nos domina.