Fez 50 anos, no passado dia 25 de janeiro, que o Palácio de Cristal no Porto foi cercado por forças da extrema-esquerda, enquanto decorria o 1.º Congresso do Centro Democrático Social (CDS), fundado em julho de 1974 por Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, entre outros. O evento reuniu cerca de 700 pessoas, entre fundadores, militantes e simpatizantes, e esteve 12 horas cercado por populares enfurecidos que gritavam: morte ao CDS, o congresso não passará, morte ao fascismo. Quem lá esteve, nunca esqueceu a sensação de pânico. Que o diga a minha mãe, que acompanhou o meu pai, militante do partido. Os polícias, desorientados com a multidão em fúria, tentaram a todo o custo evitar o ataque ao Palácio. Houve confrontos, mais de uma dezena de feridos e carros incendiados. Alguns elementos das forças policiais encontravam-se do lado de dentro. Vários congressistas eram ex-militares e caçadores, habituados ao manejo de armas. Se a multidão tivesse entrado no edifício, teria havido “tiro ao boneco”. Felizmente, ninguém foi obrigado a disparar em legítima defesa.
A noite teve contornos caricatos: a um dado momento, perante um assalto iminente pela turba enfurecida, munida de paus, de armas e de fanatismo cego, Freitas do Amaral sugeriu aos cavalheiros que transportassem cadeiras para as galerias superiores para que a senhoras se pudessem sentar. Pela noite dentro, enquanto alguns tentavam descansar, outros colocaram-se estrategicamente nas entradas das galerias, preparados para as defender. Em caso de invasão, a alternativa era empurrar os atacantes pela balaustrada. Terá sido através de contactos telefónicos com dirigentes de partidos congéneres na Europa, os quais entraram em contacto com o Conselho da Revolução para que este interviesse, que um banho de sangue foi evitado. Depois de saírem escoltados, muitos militantes evitaram regressar aos hotéis onde se tinham hospedado, com receio de serem perseguidos.
Os meu pais tinham-me levado para o Porto e assisti pela televisão à chusma a lançar pedras contra a fachada do edifício. Foi a primeira vez que me lembro de ter sentido medo. Já era madrugada quando chegaram a casa dos amigos onde me tinham deixado. Dormiram na sala, em colchões improvisados. Era ainda uma criança e nunca esqueci este dia, que acabou por ser mais um, entre muitos momentos tensos do período pós-revolução.
Em 1975, ser do centro e assumir uma posição conservadora foi, acima de tudo, um ato de valentia. Isto porque a extrema-esquerda na altura, tal como agora, considerava fascistas todos aqueles que não obedecessem cegamente à sua doutrina. Mas era uma Esquerda ainda fresca para muitos, ingénua e sincera, imbuída de raiva contra os opressores que mergulharam Portugal no obscurantismo. Vejo-a bastante diferente da Esquerda atual, cujo espetro se alargou, e que vai agora da linha caviar à Festa do Avante. Contudo, o fanatismo cego que confunde o centro com a extrema-direita teima em persistir. O CDS sobreviveu, em grande parte graças ao resgate pelo PSD quando recuperou a AD, embora seja uma sombra do que já foi.
É importante recordar os momentos em que a democracia esteve em perigo, para que a memória nos guie rumo ao futuro, cada dia mais polarizado.