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Fantasias literárias

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Não sei se acontece o mesmo com os outros escritores, mas sinto muitas vezes vontade de meter a minha pena em histórias alheias, rescrever diálogos entre personagens, ou continuar a narrativa depois do fim. Uma fantasia literária recorrente é o encontro entre a Raposa e o Principezinho no conto de Saint-Exupéry. Já o imaginei centenas de vezes.

“A raposa olhou para aquele rapaz bonito e percebeu imediatamente que era um Príncipe. Em volta, não havia ninguém, apenas a cor dourada do trigo e o céu azul lá em cima, numa abóbada suave a perder de vista. Como não tinha chegado de carro nem desembarcado de nenhuma nave espacial, pensou que ele tinha caído do céu, e depois riu-se para dentro, porque nada cai do céu, tudo o que se consegue na vida custa muito a ganhar e é infinitamente mais fácil perder tudo do que manter o mais importante.

Se aquele rapaz lhe tinha aparecido do nada, alguma função iria ter na sua vida solitária e errante, sempre à procura de um abrigo que lhe servisse de casa, de um amigo que pudesse amar, de uma outra vida vivida em partilha.

— Quem és tu?
— Sou um Príncipe que quer conhecer o Mundo. E tu?
— Sou uma raposa solitária e viajada que está farta de correr e quer encontrar uma casa.
— Isso deve ser aborrecido.
— O quê? Ser solitária ou estar farta?
— Estar farta. Eu sempre fui solitário, preciso da solidão para entender o Mundo. Viajar é tão bom, como te podes ter cansado?
— É da idade.
— Eu acho-te muito bonita – arriscou o Príncipe, com um sorriso muito tímido.
— Obrigada. Tu também, de uma beleza um bocadinho triste, talvez.

Ficaram os dois a olhar um para o outro, partilhando o silêncio tranquilo que só acontece entre velhos amigos.
E eles já eram velhos amigos.

— Onde está a tua família?
— Os meus pais são de outro planeta e não tenho irmãos.
— Oh! Eu tive sete irmãos – contou a raposa, orgulhosa –, por isso cresci a brincar.

Levantou o focinho, as patas dianteiras e o torso, e ficou sentada, muito direita, a olhar fixamente para os olhos do Príncipe. Já estava apaixonada por ele e queria prender-lhe o olhar para sempre, mas os olhos dele eram difíceis de agarrar, as imagens lá dentro estavam sempre a mudar. A raposa percebeu que ele estava perdido e que não sabia o que queria.

— Já sabes onde vai acabar a tua viagem?
— Nunca pensei nisso. Escolhi ser livre.
— Eu acho que tu podias escolher ser feliz.
— Mas eu sou feliz. Eu vivo de acordo com a minha paixão; viajar, correr o Mundo, conhecer seres maravilhosos, como tu…– e, dizendo isto, sentou-se ao lado da raposa e pousou a sua mão branca e lisa no lombo dela.

A raposa estremeceu das patas à cabeça. Queria guardar para sempre aquele toque, o calor da mão dele a inundá-la por dentro. Queria tornar-se um animal doméstico devoto ao seu dono. Mas ele também tinha de querer o mesmo, ou corriam o risco de ficar apenas amigos.

Tudo tem um princípio e tudo tem um fim, mas não vou pensar no que não está nas minhas mãos. E enroscou-se a ele, como se fosse para sempre.”

Seria mais ou menos assim, porque as mais belas histórias são aquelas que também podíamos ter vivido.