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Fora do corpo

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Desde o princípio que sou o progenitor hipocondríaco. Talvez por ser mais velho, ou por vir de uma longa linhagem de neuróticos encartados, ou porque também em relação a mim sou um bocado cancerofóbico: a verdade é que fui sempre eu aquele que liga à médica, que fecha a janela, que lê o Google. Enfim: agora também já não vou a tempo de me tornar outra pessoa. Mas como é suposto que um tipo desta sorte consiga de repente esperar com um mínimo de graciosidade o tempo que, agora, eu preciso de esperar até poder estar certo de que o filho não tem um traumatismo craniano?

Evidentemente, o Artur não tem um traumatismo craniano. Caiu da cadeira, como vêm a cair todos os miúdos que entram nessa fase de já não querer a cadeira dos bebés, mas a dos adultos, e nem caiu assim tão mal. O mais certo é que apenas tenha vomitado por ter comido as duas primeiras garfadas e, acto contínuo, apanhado um susto. A própria médica já nos tranquilizou: não tem hematomas, acabou a refeição normalmente (isto é, comendo como um touro), está com a boa-disposição do costume – se tivesse um traumatismo, nada disso se verificava, e aliás o mais provável era que já tivesse vomitado de novo. Mas eu ainda mal respiro.

Uma vez, na Toscana, ele bateu com a cabeça na cabeceira da cama e eu enervei-me tão desproporcionalmente que só me lembrava dos hospitais do Norte de Itália no início da pandemia – e se começava nova pandemia de repente, agora que nós de certeza teríamos de ir com ele às urgências? E esse foi só o alarme mais absurdo. Perco a conta às vezes em que entrei em pânico a propósito de nada – na ilha, noutras ilhas, no continente, numa viagem. Ainda há dias o Tomaz me mandou uma foto da Capadócia, linda, com os balões sobrevoando as extensões rochosas que nunca conheci: imaginei-nos ali a passear, e, portanto, perguntei logo ao Tomaz o que poderia ele dizer-me da segurança da Turquia e, em particular, da qualidade dos hospitais.

É uma coisa que nunca tinha experimentado, e agora sei que não me teria completado sem chegar a viver assim, como que fora do meu próprio corpo. Há dias assisti a uma reportagem em que a mãe de uma rapariga de 26 anos a quem tinha sido extraída a vesícula contava como o pós-operatório correra mal, a filha ficara com o fígado destruído e agora tinha dois ou três dias até arranjar um novo, ou partia. Ouvi-a usar aquele verbo, “partir”, e desabei. E agora aqui estou: são duas da manhã, e não consigo escrever sobre nenhum dos temas em que tinha pensado. O meu filho, esse, dorme placidamente no seu berço, ressonando através do monitor que mantenho junto ao portátil. Mas e se, de repente, pára de ressonar e vomita?