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Gabriel

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Pensei sempre que o meu filho se chamaria Gabriel. Pensei que, como parecia ser prometido a todos os homens, cresceria para ter uma grande paixão, uma mulher talvez negra, porque imaginei que seria um modo de criar sentido para o ter nascido em Angola, e seria pai de um menino chamado Gabriel, ao qual diria que é bom ler livros, estudar sobre estranhezas matemáticas e sorrir das alegrias todas.

O facto de não ter cumprido coisa nenhuma do que me soava a imperioso e bom, não desfaz essa criança imaginária que, tão jovem, sonhei. O Gabriel. De algum modo, o não ter nascido não significa que não lide com ele, com o que penso que faríamos, o que faríamos agora que tenho sobrinhos-netos, idade para ser avô e um imenso silêncio no passado que só justifica o silêncio aumentando no futuro.

Por fraqueza da idade, naturalmente, o Gabriel é maior, mais nítido, como se pudesse ganhar intensidade mesmo sem existir. Não que lhe atribua rostos ou gestos, não que lhe invente voz ou palavras, um lugar para se sentar ou um quarto para dormir. Não estou senil, estou apenas com a vida andada e diante desse silêncio. O Gabriel é esse silêncio. Uma espécie de mudez e imobilidade, uma planura de quase nada que, por o ser e por eu envelhecer, aumenta. É maior e maior.

Em vários livros, inventei crianças talvez com o gosto de experimentar uma paternidade qualquer, mas também é verdade que as periguei, as mais das vezes as crianças não foram poupadas e certamente é porque as devolvo à imaginação. Deixo-as longe, demasiado longe, onde as sinto. Onde apenas as pressinto.

Há dias, com esta Primavera antecipada, andava já a meninada a correr de calções no jardim e alguém gritava por um Gabriel, que era um bocadinho de menino atrás de uma bola. Nunca vi um Fevereiro com gente de calções na rua. O Mundo está demenciado. Mas é tão alegre que o Inverno seja assim. Com as crianças mais felizes, o sol mais quente, os nomes altos gritados com entusiasmo para chamar e celebrar quem vive. Parece-me lindo.

Podia ser tudo de outra maneira. Mas, o facto de não ser jamais impedirá que por dentro, no puro plano dos amores, sintamos que uma espécie de ouro fica guardada no coração. Muito da vida é verdade mesmo que não aconteça. É verdade aquilo que se sente, mesmo que não aconteça.

*O autor escreve de acordo com a anterior ortografia