A Couto continua a ser referência dentífrica. Mas a marca não parou e ampliou a gama de produtos, conquistando novas latitudes.
Como muitas e boas histórias, esta também começa no Porto. E conta como uma pequena bisnaga de alumínio com logótipo retro se tornou um fenómeno nacional. Uma pasta de dentes. Produto âncora de uma empresa portuguesa que está a completar 107 anos.
No início, em 1918, a firma era uma sociedade no rés do chão de um prédio de cinco andares, o número 106 do Largo de São Domingos. Juntaram-se Alberto Ferreira Couto e Alfredo Barbeitos Flôres para tomarem conta da farmácia Higiénica. Nela puseram dinheiro, suor e nome. Farmácia Flôres e Couto. Não durou. Em 1931, Alberto Ferreira do Couto, regressado do Brasil com o sonho de um negócio farmacêutico tornou-se no único administrador, rebatizando-o: Couto.
O best-seller da marca foi registado no ano seguinte. A Pasta Medicinal Couto tinha uma fórmula infalível. Criada pelo gerente com a ajuda de um amigo dentista, tinha a finalidade de lavar os dentes e evitar as infeções. À época, foi milagrosa no combate aos malefícios bucais decorrentes da sífilis, doença sexualmente transmissível que infetava gengivas e fazia cair os dentes.
Não demorou a andar “na boca de toda a gente”, disseminou um dos anúncios icónicos. Em pouco tempo, a Couto não ocupava só o rés do chão, mas todos os andares do imóvel, com pisos específicos para cada atividade, desde o fabrico ao embalamento da pasta.
O sucesso acontecia com consistência. Vendas, novos produtos, como o Restaurador Olex e o Petróleo Olex, mais vendas e muita popularidade. Quando o fundador morreu, em 1974, Alberto Gomes da Silva, o sobrinho, pôs as mãos na pasta. Desde novo viu longe. Tão longe que teve a sagacidade de nunca mudar fórmulas nem o desenho das embalagens.
Sentadas na mesa de reuniões da Couto, sediada desde 2004 no complexo industrial da Utic, em Gaia, estão Alexandra Gomes da Silva, a administradora que tomou as rédeas da empresa após a morte do marido, Alberto, em 2023, e Cláudia França, diretora de produção, a alquimista. Ambas são exemplo de como a visão estratégica e a paixão pela inovação podem relançar uma empresa, sem lhe roubar o ADN. “Não, não há nenhuma empresa como esta.” Alexandra sabe do que fala e Cláudia é cúmplice.
Nos escritórios há um expositor com produtos Couto. Há sofás propaganda, anúncios emoldurados nas paredes. Todos a destacar o sorriso. Alexandra e Cláudia sorriem também. Dentes brancos, impecáveis, pois claro. De olhos postos no futuro. Muito atentas ao presente. A Couto não se acomodou ao reavivar do vintage, tem lançado novos produtos. Ouviram-se as necessidades do mercado. Aumentou a procura. Nacional e estrangeira.
Para isso também contribuiu a abertura de uma loja física, na Rua de Cedofeita, no Porto, que complementou a que já existia online. É um autêntico regresso ao passado. Design retro, míni museu, cheiro a nostalgia e anúncios que se podem levar para casa. Em loja, os clientes estrangeiros representam 90% das vendas, com os coreanos no topo da lista. Já no online imperam alemães, espanhóis, italianos e americanos. Nas redes sociais, a moda é mostrar embalagens vazias.
Por cumprir está o desejo de arranjar um local adequado para as novas instalações. “Aqui não temos muito espaço para stock”, lamenta Cláudia, a produção dos vários produtos reveza-se nas semanas. “E gostávamos de explorar a área da visita industrial”, confessa Alexandra. Seja de escolas, universidades ou turistas. Cláudia conta que recebem muitos pedidos, mas não têm “condições nas atuais instalações para proporcionar esse tipo de experiência às pessoas”.
E nisto abrem-se as portas da sala onde uma “bimby gigante”, brinca Cláudia, acabou de fazer mais uns quilos de Pasta Dentífrica Couto. O odor faz cócegas nas emoções. São 107 anos de uma fórmula inalterada. Guardada a sete chaves. Faz pensar. Há uma pasta de dentes fabricada em Portugal que rivaliza com as marcas estrangeiras. É impossível não sorrir.
20 Produtos
Dentes, cabelo, corpo e novidades
Ao portefólio juntaram-se entretanto outros produtos como: desodorizante, vaselina, creme de corpo, de mãos, de barbear e uma pasta dentífrica Couto com flúor Muitos deles vendidos nas míticas bisnagas. Estão disponíveis na loja online e nos mais diversos estabelecimentos comerciais, um pouco por todo o país. Mas na empresa sente-se o fervilhar de novidades.
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Funcionários continuam legado centenário
Com uma pequena equipa (chegaram a ser 30 trabalhadores), hoje a marca tem instalações modernas, com máquinas que permitem a produção anual, por exemplo, de 600 mil embalagens de pasta dentífrica. O mercado nacional ainda é o grande cliente, com 90% das vendas.